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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Defronte do oratório simetrizavam duas molduras envidraçadas, expondo cada qual uma talagarça cheia de amostras dos diversos bordados de lã, que as meninas aprendem no colégio. “Panos de tapete” como se diz no Maranhão. Em uma delas liam-se no centro as iniciais M. R. S. e “Colégio da Trindade em l838”, e na outra, que estava em melhor estado de conservação “A. R. S. S.” e Uma data muito mais recente. A julgar por estas letras, os dois quadros tinham sido bordados por Mariana e Ana Rosa, mãe e filha. Tudo isso foi minuciosamente esmerilhado pelo Dias; leu as Horas Marianas, apalpou as roupas de Maria Barbara, provou a ponta do molho do fumo com que esta “espairecia os passados dissabores”, e. depois, quando nada mais tinha para esmiuçar, pôs-se a refletir, pensando, no que devia fazer. Afinal veio-lhe uma idéia, que lhe deu um sorriso de contentamento, acendeu logo uma das grossas velas de cera, tomou pelas pernas a imagem de São Raimundo e tisnou-lhe a cara e a careca de encontro à chama do pavio. Depois da operação, o pobre santo parecia um carvoeiro; ficara tão negro como o seu companheiro de oratório, o engraçado São Benedito.

Dias contemplou a sua obra, riu de novo, calculando o bom efeito que ela produziria, colocou em seguida a imagem no seu lugar, e saiu apressado, por lhe parecer que ouvira rumor na porta da rua. Enganara-se.

Daí a meia hora, vestido de pano preto, segundo o seu invariável costume. o acreditado caixeiro de Manuel Pescada, tomava o bonde do Cutim, com destino ao sitio da sogra do patrão.

CAPÍTULO VIII

Eram cinco da tarde.

A festa de Maria Bárbara continuara sempre muito animada; havia uma boa disposição geral. Os homens bebericaram durante o dia cálices de conhaque, e sopravam agora o fumo dos seus charutos domingueiros, com um grande ar de pessoas de importância: as senhoras melaram galantemente os beiços com licor de rosa e hortelã-pimenta Dançara-se muito. Brincou-se o Padre-cura o Anel, o Peixinho de Muquém Afinal. foram todos lá pra fora, apreciar a tarde, assentados nos bancos fronteiros a casa. A sociedade estava engrossada pelos quatro caixeiros de Manuel e por um sertanejo que a divertia com as suas cantigas. “Lamparinas” havia saído para ir ali perto, à quinta de um amigo, mas prometera não faltar à ladainha.

O sol escondera-se. Uma tarde formosa, com o seu poente esfogueado, rubrava as caras suadas dos homens e os vestidos machucados das senhoras, que se arejavam debaixo das latadas de maracujás e jasmins da Itália. As damas, comodamente assentadas, tinham requebros de etiqueta, gestos cheios de conveniência, risos com a boca fechada, olhares por debaixo das pálpebras, o leque nos lábios e o dedo mínimo levantado com galanteria.

Minava um apetite surdo pelo jantar: alguns estômagos resmungavam indiscretamente. Contudo, todos os olhares e todas as atenções convergiam, na aparência, para o sertanejo, que a certa distância, de pé, isolado, a cabeça erguida com desembaraço mal-educado, o chapéu de couro atirado para a cerviz e preso ao pescoço por uma correia, a camisa de algodão cru por fora das calcas de zuarte, arregaçadas no joelho, o pé descalço, curto e espalmado, pé de andarilho, o peito liso e cor de cedro à mostra, braço nu e sem cabelos vibrava entusiasmado as cordas metálicas de uma viola ordinária, acompanhando, com um repinicado muito original, os versos que improvisava e outros que trazia de cor:

“Lá vai a garça voando

Para as bandas do sertão!

Leva Maria no bico,

Teresa no coração!”

Ao terminar de cada estrofe, rebentava um coro de risadas, durante o qual se ouvia o sapatear surdo do sertanejo, socando a terra, a dançar.

“Não tenho medo da onça,

Que todos têm medo dela!..

Não tenho medo de ti,

Que fará de Micaela!”

E o matuto, depois do sapateado, dirigiu-se a Ana Rosa:

“Me diga, minha senhora:

(Quem pergunta quer saber...)

Se eu sair daqui agora,

Onde vou amanhecer? “

— Este foi de sentimento!... considerou Etelvina com um gesto aprovativo.

— Gostei, gostei... confirmava o Freitas, protetoramente.

E o sertanejo ferrou o olhar em Ana Rosa:

“Sinhá dona, se eu pedisse...

Responda, mas não se ria...

Uma flor do seu cabelo...

Sinhá dona que diria?…”

— Bravo!

— Sim senhor!

Houve um sussurro alegre

— D. Anica, de a flor!...

Ana Rosa hesitava.

— Então, menina... repreendeu Manuel em voz baixa.

Ana Rosa tirou um bogari da cabeça e passou-o ao trovador, que versejou logo:

“O minha senhora dona,

Deus lhe pague eu agradeço;

Seus quindingues são dos ricos

Eu sou pobre e não mereço!... “

E, colocando a flor atrás da orelha, continuou, depois de olhar intencionalmente para Raimundo:

“Ó nhá dona feiticeira!

Me cativa seu favor

Mas não vá meter ciúmes

Agora pro moa e a flor!...”

Em seguida, desprendeu o chapéu e estendeu-o a um por um.

Consultaram-se as algibeiras do colete, pingaram os vinténs e as pratinhas de tostão. O menestrel, com a cabeça erguida em ar de exigência, dizia:

“Vamos, vamos, pingue o cobre,

Qu 'eu não gosto de maçada!

Dos homens aceito a paga,

Das mocas não quero nada!”

E, quando se chegou a Manuel:

“Manuelzinho cravo roxo,

Me desculpe a impertinência;

Se puder dar eu aceito,

Se não puder — paciência!...”

Entre gargalhadas, enchiam-lhe o chapéu de moedas. Ao chegar a vez do Faísca, este. em vez de dinheiro, lançou-lhe a ponta do cigarro; o matuto, como de costume, cavaqueou com a pilhéria e gritou zangado:

“Seu lanceiro da Bahia,

Casaquinha do Pará

A gente recebe o coice,

Conforme a besta que o dá!”

(continua...)

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