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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— A sua ilusão, Sr. Dr. Ângelo, tem um falso fundamento. Pensa o senhor que eu estou livre, quando eu sinto ainda pungir-me o pulso a cadeia de ferro, que me prende a meu marido, e não se partirá senão com a morte de um de nós dois. Eu não estou livre, continuo a ser a escrava infeliz, que, embora na ausência de seu senhor, sente, ao pensar na sua mísera condição, a ponta do azorrague machucarlhe as carnes. Hoje, é muito mais melindrosa a minha situação do que antes do casamento de Virgínia; o senhor compreende sem dificuldade que a uma filha casada tem sua mãe muito mais rigoroso dever de dar exemplos de honestidade, do que a uma solteira, do que a uma donzela, que traz em sua condição parte de sua defesa. Não é certo que a corrupção chega muito mais facilmente, porque chega sem deixar vestígios, ao seio da consorte do que ao seio da virgem? Não tenha mais nenhuma ilusão a meu respeito. Estou morta para o amor, a não ser para o amor maternal.

Estas palavras levaram o gelo à alma do bacharel, que estava em fogo um momento antes. Ele parou. O luar cobria-os de suave claridade, que ajudou Maurícia a distinguir no semblante de Ângelo indícios de íntimo desespero.

— Mas, então, disse ele como quem não achava palavras para exprimir com precisão as suas idéias, por que de lá mesmo onde estava, não cortou com decisivo e rude golpe esse amor parasita que me corrói o coração? Por que me escreveu a senhora? Por que teve para mim nessa carta expressões que se parecem com saudáveis confortos e promessas de prazer eterno? Tenho aqui comigo a sua carta. Muitos e ardentes beijos têm meus lábios imprimido nela.

Ângelo tirou do bolso a carta que Maurícia lhe enviara com a tradução do romance de George Sand, e o acompanhamento da poesia dele; e sem poder suster o seu destino, beijou várias vezes o papel.

— Meu Deus! — exclamou Maurícia a modo de assustada. Peço-lhe perdão, mil perdões. Não cuidei que alentaria assim o fogo do seu coração. Deus é testemunha de que, escrevendo-lhe essas letras, a minha intenção foi outra. Julgava todo o seu afeto por mim extinto, inteiramente aniquilado; e tinha razão para pensar assim. Mas, se as minhas palavras foram sementes fatais que vieram viver entre as chamas como as salamandras, não me recuse o seu perdão, porque cometi esse crime sem intenção, antes pensando em praticar ação lícita e boa.

E tomando novamente o braço do bacharel, compeliu-o a andar. Pouco adiante, estavam parados os outros.

— Tenho uma coisa que lhe dizer, D. Maurícia, acudiu Sinhazinha, tanto que pode ser ouvida pela mãe de Virgínia.

E correu para ela, gentilmente. Ângelo, deixando então as duas amigas juntas, foi dar o braço a D. Matilde. Daí, voltaram.

O que Sinhazinha queria dizer à Maurícia é fácil adivinhar. Ela soubera naquele momento da ausência da rival. D. Matilde, que votava grandes simpatias à filha de D. Sofia, revelara-lhe a sua satisfação por ver o filho livre do perigo. É fácil compreender o efeito de tal revelação no espírito, para assim dizermos, no coração da menina. Ela andava triste. Aquelas aventuras tinham-lhe dado muito fel a beber. Durante os dois meses que se seguiram à sua chegada do engenho o seu desgosto, o seu amargor íntimo tinha ido em aumento. Quando Maurícia chegou, mas pode conhecê-la, porque as carnes pareciam ter fugido do corpo dela e a palidez cobrialhe o rosto. Era inda este o seu estado. A notícia dada por D. Matilde mudou subitamente as condições do seu espírito. Ordinariamente, tímida e modesta, Sinhazinha não guardou desta vez coerência com sua índole e seus hábitos. Tomando o braço de Maurícia, não a deixou mais senão em casa de Martins. Tornara-se outra. Estava alegre. Mais de uma vez aproximou-se de Ângelo e dirigiulhe a palavra; o bacharel notou esta diferença, porque nos encontros que tivera com a moça durante as duas noites últimas, vira-a apenas corresponder aos seus cumprimentos e, em vez de aproximar-se, não perder ocasião de se distanciar dele. O prazer de Sinhazinha, porém, durou pouco, porque dentro em breve ela teve a certeza de que Ângelo estava a todo momento a manifestar-lhe esquivança. As impressões de Sinhazinha foram a modo de comunicativas: Maurícia, à proporção que os dias se adiantavam, caía também em funda melancolia. Uma vez, perguntou-lhe Eugênia:

— Que tem você, Maurícia? Todos notam que você anda descontente e preocupada. Parece-me que não há razão para semelhante tédio à vida.

Virgínia, que já tinha chegado, aproximou-se de Maurícia e disse-lhe.

— Ora, mamãe, deixe-se de tristeza. Vamos tocar, ou antes, venha cantar. Venha, mamãe.

Por satisfazer à filha, Maurícia pôs-se ao piano. Quando terminou a harmonia de Schubert, que era a sua predileta, estava banhada de lágrimas.

Interrogada sobre a causa do seu pranto, dissera que não podia ser outra senão a sua pouca sorte. Todos foram levados a achar a razão desse pranto no procedimento de Bezerra. Maurícia não disse sim, nem não, a semelhante respeito. Mas os eu coração e a sua consciência protestaram em silêncio contra o juízo geral.

CAPÍTULO XVIII

(continua...)

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