Por Franklin Távora (1878)
Manoel do Ó, que não obstante a sua avançada idade tinha ainda grandes espíritos e não perdia de vista os passos de Maia, saiu logo com sua gente; e pois na véspera de noite seu filho Anacleto do Espirito-Santo, que chegara do Limoeiro, aonde tinha ido a destrocar uns cavalos, lhe dissera ter visto aí o Tunda-Cumbe, não pensou em proteger a retaguarda, até porque, sendo muito numeroso o concurso dos agressores, toda a gente viu-se obrigada a empenhar-se em lhe fazer frente.
Este foi o seu mal, porque momentos depois teve a retaguarda atacada por forças não menos numerosas que as de Luiz Soares. Foi o caso que, tendo-se entendido Maia previamente por carta com Antonio Coelho e concertado com ele o ataque ao obstáculo comum, não se fizera esperar do lado de Goiana o reforço do Tunda-Cumbe.
Vendo-se entre dois fogos o povo de Manoel do Ó, não houve esforço que não empregasse para romper qualquer dos lados, nem atos de bravura que não praticasse, a fim de levar a melhor aos agressores. Tudo porém foi debalde. Trinta homens não podiam triunfar de oitocentos.
A cabo de uma hora de peleja que não se pode descrever, Manoel com quase todos seus parentes estavam destroçados e vencidos. Restavam unicamente da família as mulheres, dois filhos e três sobrinhos, que lograram escapar-se quando reconheceram que a sorte das armas lhes era adversa. Estes, para não perderem a vida, ganharam o mato.
Não se podem imaginar as atrocidades que, vendo-se senhores do campo, cometeram na povoação, desamparada no mais aceso da luta, os bandoleiros desenfreados e sedentos.
Refugiaram-se no mato os homens feridos e as mulheres chorosas e consternadas que constituíam os últimos restos da parentela de Manoel do Ó. Aí o seu ódio cresceu e radicou-se profundamente no coração de cada um dos foragidos. Exagerados em seus desejos de desagravar-se, juraram na solidão da selva, testemunha da sua adversidade e depositaria dos seus prantos, que se pudessem voltar com vida a Pedras-de-fogo, como lei de sua honra, não consentiriam jamais que nenhum português se demorasse mais de vinte e quatro horas na povoação fundada pela ilustre vitima cuja memória eles deste modo queriam honrar. Julgavam, jurando preencher esta promessa solene, que cumpriam um preceito de alta justiça. Não era porém outro sentimento o deles, assim prometendo, que o sentimento da vingança pessoal, sempre cego e injusto.
Transmitindo-se de pai a filho, de filho a neto, nem foi esquecida a tradição do morticínio nem ficou sem preenchimento a promessa feita entre prantos e angustias há mais de um século.
Não há no que aí fica relatado, invenção de romancista. Até bem pouco tempo, logo que chegava qualquer filho de Portugal a Pedras-de-fogo, era intimado de ordinário por moradores pertencentes às primeiras famílias, para que dentro de poucas horas se retirasse.
Este exagero passou de todo. A civilização, polindo o brasileiro do interior, deixou-lhe inteiramente livres os movimentos de natural generosidade e brandura, que constituem a parte essencial de seu gênio.
Enquanto estas cenas e outras semelhantes se passavam em diferentes pontos do termo de Goiana, acertadas providencias eram dadas pelo governo da capital a fim de que elas não se reproduzissem.
Não sem razão inspirava aos nobres plena confiança o ajudante-de-tenente Francisco Gil Ribeiro. A galhardia e a bravura militar de Gil eram tradicionais, e constituíam um dos mais ricos e ilustres patrimônios da gloria pernambucana. Para descansar das fadigas da sua longa e trabalhosa vida, acolhera-se o ancião na sombra do lar domestico. Afetos brandos, inclinações respeitáveis, tinham-se substituído às violentas explosões da paixão guerreira. Estabelecera ele sua residência nas Salinas (hoje Santo-Amaro), à margem direita do Beberibe, entre cajueiros e sapotiseiros pitorescos. Daí o foi tirar o governo, para lhe entregar o comando da fortaleza de Itamaracá, ameaçada de cair no poder dos amotinados de Goiana. As noticias, porém, dos graves e sucessivos conflitos havidos nesta vila, determinaram o governo a ordenar que o ajudante-de-tenente, à frente de quarenta homens, e acompanhado dos alferes Carlos Teixeira e Francisco Alves, e do ajudante Felipe Bandeira de Melo, se dirigissem sem perda de tempo a pacificar aquela localidade.
Ao entrarem na estrada geral do norte, um matuto que passava do Recife, vendo a força, recuou o cavalo, para deixar livre o caminho. Parecendo suspeito a Gil este movimento de pura cortesia ou respeito, fez sinal a alguns soldados que segurassem o matuto. Este, porém, que não era outro que Francisco, adivinhando a intenção, pôs-se a respeitosa distancia, aos primeiros gestos dos soldados.
- Que idéia faz de mim, seu comandante? perguntou ele com serenidade. Pensará que sou pela mascataria? Pois se pensa, está malenganado.
Ouvindo estas palavras, Gil, com gesto imperioso e grave chamou o matuto para mais perto de si; e lhe disse:
- Quem foi que te ensinou este recado para me iludires?
- Não quero iludir ninguém.
Cuidado com esta gente, senhor ajudante, disse Felipe Bandeira a meia voz a Gil. Parecendo simplórios, são finos e manhosos.
- Mas quem lhe disse que eu sou pela mascataria? tornou Gil a Francisco.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.