Por Bernardo Guimarães (1872)
Nesse momento ouve-se o tropel de um cavaleiro que apeia-se e bate à porta. Esse incidente correu o pano sobre aquela triste e dolorosa cena; Lúcia levantou-se enxugando à pressa as lágrimas e procurando compor o rosto transtornado pelas cruéis emoções do momento. O Major foi tranqüilamente abrir a porta que da rua ou da estrada dava imediatamente para a pequena sala em que se achavam; mas empalideceu ao reconhecer no visitante o mancebo contra o qual há poucos instantes a cólera lhe tinha feito vomitar os mais injuriosos impropérios. Elias, graças ao bafejo extraordinário que recebera da fortuna à cabeceira de seu camarada moribundo, apresentava-se com ar altivo e resoluto; dir-se- ia que ouvira as injúrias de que há pouco fora o alvo, e delas vinha exigir pronta satisfação. Mas, não era nada disso.
Elias, depois de ter dado com minucioso cuidado as necessárias providências para que se fizesse o enterro a seu velho camarada com a possível decência, montou de novo a cavalo, e sem ao menos parar na casa de sua velha enfermeira, dirigiu-se a toda a pressa à choupana do Major. Já não eram precisas as entrevistas furtivas; os tímidos e ocultos manejos já não tinham lugar. Era tempo de apresentar-se francamente e declarar sem dissimulação as suas pretensões.
Quando Elias se apresentou ao limiar da porta, Lúcia não pôde conter um grito de surpresa. O Major recuou um pouco desconcertado, murmurando consigo: este homem. . . ! meu Deus! . . . este homem é como um espectro que surge sempre diante de mim em ocasiões destas. Depois, recuperando o sangue- frio, cumprimentou cortesmente e disse-lhe:
- Oh! senhor Elias, muito me honra a sua visita. . . mas, desculpe-me a franqueza, continuou com sorriso sardônico, não posso dissimular-lhe que nesta ocasião ela não me parece de muito bom agouro.
- Não? . . . sinto muito, senhor Major; mas não admira que eu, que sempre tenho sido infeliz, não possa agourar senão desgraças. Mas agora. . . não sei qual possa ser o motivo. . .
- Não se lembra que a última visita com que me honrou, foi em vésperas de casar-se minha filha Lúcia? . . .
- Oh! se me lembro! . . . perfeitamente.
- E lembra-se também que esse casamento se desfez de um modo bem triste? . . .
- Como se fosse hoje, senhor Major. . .
- Pois bem; e agora que estou de novo em vésperas de casa-la, eis que me aparece a sua visita. Sou algum tanto supersticioso e não deixo de ficar um pouco apreensivo. . .
- E não é sem fundamento a sua apreensão, senhor Major. Já que me fala com tanta franqueza, permita-me que lhe retribua na mesma, e fique sabendo que o meu aparecimento hoje em sua casa não está longe de ser o anúncio de um novo desmancho de casamento.
- Deveras, senhor Elias! ? exclamou o Major com um sorriso que exprimia a um tempo estranheza, desdém e zombaria. Deveras! então ainda desta vez espera que temos pela barba algum moedeiro falso? . . .
- Pouco importa, retorquiu Elias sorrindo. Se não é moedeiro falso, o noivo de agora não deixa de ser um usurpador que pretende roubar o que lhe não pode pertencer. Da primeira vez foi a polícia quem se encarregou de desmanchar o casamento; desta vez, porém, serei eu mesmo.
O Major estava pasmo, e não sabia o que pensar da audácia e impavidez com que o moço proferia aquelas palavras que a seus olhos eram verdadeiros despropósitos. Estará louco este homem? pensava; ou prevalecendo-se do estado de pobreza e desvalimento em que me acho, vem agora vingar-se insultando-me? . . .
Lúcia também, entre atônita e contente, não podia bem atinar com a significação daquele inesperado incidente, e ardia por ouvir da boca de Elias a explicação de tão extraordinário procedimento; mas não lhe ficando bem dirigir-lhe a palavra, o interrogava com os olhos, onde reluzia a mais ansiosa e viva curiosidade.
-seguramente, replicou o Major depois de um instante de silêncio, o senhor está gracejando; mas permita-me que lhe advirta que nem a ocasião nem o assunto são próprios para zombarias.
- Perdão, senhor Major! . . . não zombo, nem sou capaz de zombar de ninguém em negócio tão melindroso. Repito-lhe que venho desmanchar um casamento, porque venho aqui de propósito para pedir a mão de sua filha para outra pessoa que tem mais direito a ela do que esse pretendente com quem a quer casar, e que em ponto nenhum lhe é inferior.
O assombro do Major crescia de ponto, ao mesmo tempo que se aumentava o contentamento de Lúcia, que começava a entrever o desfecho daquela cena.
- Então o senhor, prosseguiu o Major pausadamente e carregando nas palavras; então o senhor veio à minha casa de propósito para embargar o casamento de minha filha com a pessoa a quem eu quero dá-la? . . . Deveras meu senhor? o senhor mesmo? . . .
- Sim, senhor! eu mesmo! repetiu Elias com segurança.
- E quem lhe dá esse direito? . . .
- Perdão; não venho exigir; venho pedir.
O Major hesitou um momento na resposta que devia dar; passou a mão pelas barbas grisalhas e respondeu:
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.