Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições e impertinente com tudo. Rafael é quem paga o pato: se o inocente moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos, porque quer ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois pescoções, para andar mais ligeiro. Não há, enfim, coisa alguma que possa contentar o sr. Augusto; está aborrecido da medicina, tem feito duas gazetas na aula; de ministerial, que era, passou-se para a oposição; não quer mais ser assinante de periódicos, não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a corte, detesta a roça e só gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco menos carrancudo, porque Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha e tem a paciência de estar ouvindo pela duodécima vez a narração do que com ele se passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre ele e a bela Moreninha, porque Leopoldo lhe perguntou:
— E por onde fugiria ela?...
— Por uma difícil saída que eu não tinha observado, respondeu Augusto, e que exatamente se praticava no fundo da gruta.
— Que diabinho de menina!
— Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela, quando entrei na sala, me perguntou sossegadamente: "Esteve dormindo na gruta, sr. Augusto?…"
— Então ela gostou da tua semideclaração?!
— Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
— Ora, é boa! Não devia fazer outra coisa.
Se ela gostasse de mim!... Mas, por que não me deu um só sinal de ternura?... Também eu, às vezes tão adiantado, fui desta um tolo, um basbaque! Tremi diante de uma criança que não tem quinze anos e não soube dizer duas palavras.
— Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que d. Carolina foi mais sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro; e se não, dize por que se não deixou ela dormir, como as outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?... Por que ficou ali passeando até desaparecer o teu batelão?
— Isto não significa nada.
— Ora, ature-se um namorado!... Mas venha cá sr. Augusto, então como é isto?... Estás realmente apaixonado?!
— Quem te disse semelhante asneira?...
— Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e...
— Ora viva! Quero divertir-me… digo-te que a acho feia; não é lá essas coisas; parece ter mau gênio. Realmente notei-lhe muitos defeitos... sim... mas, às vezes... Olha, Leopoldo, quando ela fala ou mesmo quando está calada, ainda melhor; quando ela dança, ou mesmo quando está sentada... ah! ela, rindo-se… e até mesmo séria... quando ela canta ou toca ou brinca ou corre, com os cabelos à negligé, ou divididos em belas tranças; quando... Para que dizer mais? Sempre, Leopoldo, sempre ela é bela, formosa, encantadora, angélica!
Então, que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que, principiando, chamaste feia?...
— Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu... no princípio... Mas depois... Ora, estou com dores de cabeça; este maldito Velpeau!... Que lição temos amanhã?
— Tratar-se-á das representações de...
— Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de d.
Carolina, do baile, do...
— Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã?
— Eu? Pode ser... Esta minha cabeça!...
— Não é a tua cabeça, Augusto, é o teu coração.
Houve então um momento de silêncio. Augusto abriu um livro e fechou-o logo; depois tomou rapé, passeou pelo quarto duas ou três vezes e, finalmente, veio de novo sentar junto de Leopoldo.
— É verdade, disse; não é a minha cabeça: a causa está no coração. Leopoldo, tenho tido pejo de te confessar, porém luto posso mais esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo lê nos olhos! Leopoldo, aquela menina que aborreci no primeiro instante, que julguei insuportável e logo depois espirituosa, que daí a algumas horas comecei a achar bonita, no curto trato de um dia, ou melhor ainda, em alguns minutos de unia cena de amor e piedade, em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama, plantou no meu coração um domínio forte, um sentimento filho da admiração, talvez, mas, sentimento que é novo para mim, que não sei como o chame, porque o amor é um nome muito frio para que o pudesse exprimir!... Eu já não me conheço... não sei onde irá isto parar... Eu amo! Ardo! Morro!
— Modera-te, Augusto; acalma-te; não é graça; olha que estás vermelho como um pimentão.
— Oh! Tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me, tudo, até a própria mentira.
— E tu acreditaste muito nessa senhora!…
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.