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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Entre esta ilha e a dos Frades estão duas ilhetas, em cada uma das quais está um morador, que a lavra, e são de Antônio da Costa. Deste engenho de André Fernandes para cima vai fazendo a terra uma enseada de uma légua, no cabo da qual está o esteiro de Parnamirim; e defronte desta enseada, bem chegadas à terra firme, estão três ilhas; a primeira defronte do engenho, que é do mesmo André Fernandes, que tem perto de meia légua, onde tem alguns moradores, que lavram canas e mantimentos; e junto desta ilha está outra mais pequena, que é do mesmo, de onde tira lenha para o engenho; e mais avante de Parnamirim está outra ilha, que se diz a das Fontes, que é de João Nogueira, a qual é de meia légua, onde também vivem sete ou oito moradores. A terra de todas estas três ilhas é alta e muito boa. Na boca do esteiro de Parnamirim está um engenho de bois de Belchior Dias Porcalho, que tem uma ermida de Santa Catarina. Por este esteiro de Parnamirim entra a maré uma légua, no cabo da qual está outro engenho de bois de Antônio da Costa, que está muito bem acabado. Este esteiro de uma parte e da outra está todo lavrado de canaviais e povoado de formosas fazendas, no meio do qual está uma ilha de Vicente Monteiro, toda lavrada com uma formosa fazenda. E tornado à boca deste esteiro, andando sobre a mão direita daí a uma légua, está tudo povoado de moradores, onde tem muito boas fazendas de canaviais e algodões, a qual terra se chama Tamarari, no meio da qual está uma igreja de Nossa Senhora, que é freguesia deste limite. Esta terra faz no cabo uma ponta; e virando dela sobre a mão direita vai fugindo a terra para trás, até dar em outro esteiro que chamam Marapé, onde se começam as terras de Mem de Sá, que agora são de seu genro, o conde de Linhares.

C A P Í T U L O XXV

Em que se declara o rio de Seregipe, e terra dele à boca do Paraguaçu.

Partindo com a terra de Tamarari começa a do engenho do conde de Linhares, a qual está muito metida para dentro fazendo uma maneira de enseada, a que chamam Marapé, a qual vai correndo até a boca do rio de Seregipe, e terá a grandura de duas léguas que estão povoadas de mui grossas fazendas. Entra a maré por este rio de Seregipe passante de três léguas, onde se mete uma ribeira que se diz Traripe, onde esteve já um engenho, que fez Antônio Dias Adorno, o qual se despovoou por lhe arrebentar um açude, que lhe custou muito a fazer, pelo que está em mortuário; mas não estará assim muito tempo, por ser a terra muito boa e para se meter nela muito cabedal.

Descendo por este esteiro abaixo, légua e meia sobre a mão direita, está situado o afamado engenho de Mem de Sá, que agora é do conde de Linhares, seu genro, o qual está mui fabricado de casa forte e de purgar, com grande máquina de escravos e outras benfeitorias, com uma igreja de Nossa Senhora da Piedade. Desta banda do engenho até a barra do rio que podem ser duas léguas, não vive nenhum morador; por ser necessária a terra para o meneio do engenho, e por ter perto da barra uma ribeira, onde se pode fazer outro engenho muito bom; mas, da outra banda do rio, de cima até abaixo, está tudo povoado de muitas fazendas, com mui formosos canaviais, entre os quais está uma, que foi de Gonçalo Anes, que se meteu frade de São Bento, onde os frades têm feito uma igreja do mesmo santo com seu recolhimento, onde dizem missa aos vizinhos. Na boca deste rio, fora da barra dele, está uma ilha que chamam Cajaíba, que será de uma légua de comprido e meia de largo, onde estão assentados dez ou doze moradores, que nela têm bons canaviais e roças de mantimentos, a qual é do conde de Linhares. Junto dessa ilha está outra, pequena, despovoada, de muito boa terra. E, bem chegado à terra firme, no cabo do rio da banda do engenho, está outra ilha, de meia légua em quadro, por entre a qual e a terra firme escassamente pode passar um barco, a qual também, com as duas atrás, são do conde de Linhares. Da boca deste rio de Seregipe, virando ao sair dela sobre a mão direita, vai fazendo a terra grandes enseadas, em espaço de quatro léguas, até onde chamam o Acum, por ter o mesmo nome uma ribeira que ali se vem meter no salgado, na qual se podem fazer dois engenhos, os quais não estão feitos por ser esta terra do engenho do conde de Linhares e não a querer vender nem aforar, pelo que vivem poucos moradores nela, onde o conde tem um formoso curral de vacas. Do cabo desta terra do conde à boca do rio Paraguaçu são três ou quatro léguas, despovoadas de fazendas, por a terra ser fraca e não servir para mais que para criação de vacas, onde estão alguns currais delas.

Esta terra foi dada a Brás Fragoso de sesmaria e pelo rio de Paraguaçu acima quatro léguas; a qual se vendeu a Francisco de Araújo, que agora a possui com algumas fazendas que nela fez, onde a terra é boa, que é pelo rio acima.

C A P Í T U L O XXVI

Em que se declara a grandeza do rio Para-guaçu e os seus engenhos na terra del-rei.

(continua...)

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