Por Eça de Queirós (1925)
Descemos ao Rossio e apreçámos uma caleche: o cocheiro, um batedor respeitado, o Ginja, pediu-nos 3$60 para nos levar a Belém, a presenciar a revolta. Éramos três e isto constituía um desembolso de um quartinho por cabeça, para ir assistir a um facto histórico... Tanta rapacidade indignou-nos. Achámos odioso que o Ginja aproveitasse as desgraças da sua Pátria para erguer tão impudentemente a cifra das suas tarifas. Dissemos-lho em palavras severas e eloquentes: o Ginja ameaçou-nos com o pingalim. Então, percebendo que já se começavam a desencadear as paixões da plebe, recolhemos – eu pelo menos recolhi a casa, pensando que se o boato da revolta era exacto e a impudência do Ginja um sintoma, veríamos ao outro dia, repetidos no Chiado e na Baixa, os horrores de 93 e as matanças de Setembro.
Mas a verdade é que eu não acreditava na revolta; e no meu quarto, depois de ter meditado, como costumo todas as noites, sobre as vantagens da Ordem e a grandeza do Ente Supremo, adormeci, tranquilo e satisfeito.
Qual não foi o meu desgosto, ao outro dia, quando o Sr. Ferreira, estimável dono da casa de hóspedes onde eu então vivia, na Travessa da Conceição, me anunciou, atónito, que nessa madrugada houvera uma revolução em Portugal! Corri precipitadamente ao Estandarte... à mesma hora em que uma caleche entrava a largo trote nas portas da cidade, trazendo Alípio Abranhos, D. Virgínia, Bibi e a ama. O nobre homem público, como depois me disse textualmente o Conde, «precipitara-se para o seu posto, desde que soubera da crise da Pátria!»
Se houvesse guerra civil, ele queria bater-se em defesa da Carta e da Legalidade, e se se atender, – segundo a acta do seu duelo – à coragem que mostrara em frente da espada do Peixotinho, não duvido que daria um valente soldado da Monarquia, à maneira dos Charettes e dos La Rochejaquelins de imperecível memória.
Se não houvesse guerra civil, pensava combater a ditadura militar, na tribuna, se ela estivesse aberta, na imprensa, se ela fosse livre; senão, na rua, na Casa Havanesa, no Grémio, em S. Carlos, no Magalhães do Chiado – pois não importa o púlpito a quem prega a verdade!
Apenas o Conde chegara a casa, o coronel Serrão, Fradinho e o Doutor, apareceram simultaneamente, prevendo com sagacidade que Alípio Abranhos decerto não se isolaria em Campolide, «quando Lisboa estava entregue a Cila», como disse o eloquente Fradinho.
Então no meio dos seus amigos, fechadas as portas, Alípio trovejou. Uma tal violação da Carta, a introdução petulante, em Lisboa, dos métodos espanhóis, «a tirania da soldadesca», indignavam-no. Foi, segundo depois me disse Fradinho, sublime; sentia-se, ouvindo a sua verbosidade trovejante – que pela cólera lembrava Juvenal e pela correcção era comparável a Cícero – que, se fosse dado a Alípio Abranhos subir à tribuna, aniquilaria, numa só sessão, a Ditadura, os créditos do velho general e a influência perversa das armas.
Fradinho acompanhava-o numa explosão paralela de cólera patriótica; o Doutor, de testa mais franzida, mugia apoiados surdos. Só o coronel, calado, fumava com desespero. No fundo da sua alma, o triunfo do velho general e do elemento militar encantavam-no: era a sua gente, que diabo! Eram os seus velhos companheiros, caramba! Porém, o seu respeito beato pelas opiniões de Alípio, abalava-lhe o entusiasmo; e coçava freneticamente o cabelo grisalho cortado à escovinha, rolando olhares ferozes, sacudido entre a influência civil de Alípio e o prestígio militar do velho general, furioso com o próprio cérebro, que não produzia naquela crise uma opinião profícua e pessoal.
De repente, D. Virgínia abre a porta da sala, agitada, e informa que «um primo do general quer falar ao Alipiozinho». Ela não o conhecia, mas vinha fardado e parecia amável: no corredor até tinha feito cócegas na barriguinha do Bibi!
Alípio Abranhos aprumou a nobre estatura, na pose clássica do patriota ultrajado, pensando que à maneira de Luís Bonaparte depois do golpe de estado de 51, o General ditador ia prender, lançar no exílio as inteligências liberais.
Todavia as cócegas na barriga do Bibi pareciam pressagiar uma missão amiga... E foi com firmeza, embora pálido, que se precipitou para a livraria.
Os três amigos ouviram no corredor a voz alegre do militar exclamando:
– Como está V. Exª? Imenso gosto em ver V. EXª. Desejo dar uma palavra a V. Exª...
Positivamente, vinha em missão amiga! Os três olharam-se, petrificados, sem compreender; e durante um quarto de hora – que tanto durou a entrevista pelo relógio do Doutor – passearam da janela para a porta, calados, em fila, com os charutos em riste e as mãos atrás das costas.
Fradinho contou-me depois que lhe bateu alto o coração, que sentiu cólicas como em Coimbra nas Sabatinas, quando ouviu de novo, no corredor, a voz jovial do militar: «um criado de V. Exª... Respeito os escrúpulos de V. Exª... Às três então... Não se incomode V. Exª.» Logo que Alípio abriu a porta, mais pálido, três vozes devoradoras o assaltaram:
– Então?
– Que era?
– Que há de novo?
– O General propõe-me que entre para o ministério... Para a pasta da Justiça...
– E então?
– Pedi duas horas para reflectir...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.