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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- "Não passa um gato que esta gente não dê fé!" - pensou Sebastião. "E que línguas! Quelínguas! Devo fazê-lo, ainda que estoure! Se ela amanhã está melhor, digo-lhe tudo!"

Estava com efeito já boa, às nove horas, no dia seguinte, quando Juliana a foi acordar, com "uma cartinha da senhora D. Leopoldina".

A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de buço e esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana; beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado a resposta de Luísa num cabazinho que trazia no braço, traçou o xale e muito risonha:

- Então que há por cá de novo, Sra. Juliana?

- Tudo velho, Sra. Justina. E mais baixo:

- O primo da senhora, agora, vem todos os dias. Perfeito rapaz! Tossiram ambas, baixinho, commalícia.

- E por lá, Sra. Justina, quem vai por lá?

Justina fez um aceno de desprezo.

- Um rapazola, um estudante. Fraca coisa!...

- Sempre pinga - disse Juliana com um risinho.

A outra exclamou:

- Olha quem! O pelintra! Nem cheta!

E erguendo o olhar com saudade:

- Ai, como o Gama não há! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me nãodesse os seus dez tostões, às vezes meia libra. Ai, devo dize-lo, foi ele que me ajudou para o meu vestido de seda! Este agora!... E um fedelho. Eu nem sei como a senhora suporta aquilo! E amarelado, enfezado! Aquilo pode prestar para nada!

Juliana disse então:

- Pois olhe, Sra. Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde se está bem, é em casasem que há podres! Encontrei ontem a Agostinha, a que está em casa do comendador, ao Rato... Pois senhor, não se imagina. É tudo o que se pode! Tudo! Anel, vestido de seda, sombrinha, chapéu! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem rasgado. Ela também, verdade seja, tem um trabalhão: fá-lo entrar pelo jardim, e para o fazer sair tem de esperar...

- Ah, lá não! - acudiu a Justina. - Lá é pela escada.

Riram baixinho, saboreando o escândalo.

- Gênios... - disse Juliana.

- Ai, lá isso, o nosso tem estômago - afirmou Justina. - Encontram na escada, e tanto se lhe dá...E muito afetuosamente, arranjando o xale:

- E adeusinho, que se faz tarde, Sra. Juliana. Ela vem hoje cá jantar, a senhora. Estive toda amanhã a engomar uma saia; desde às sete!

- Também eu por cá - disse Juliana. - Elas é o que tem; quando há amante sempre há mais queengomar.

- Deitam mais roupa branca, deitam - observou a Justina.

- As que deitam! - exclamou Juliana, com desprezo.

Mas Luísa tocou a campainha dentro.

- Adeus, Sra. Juliana - disse logo a outra, ajeitando o chapéu.

- Adeus, Sra. Justina.

Foi acompanhá-la ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito apressada ao quarto de Luísa; estava já a pé, vestindo-se, muito alegre, cantarolando.

O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:

Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não posso ir antes das seis. Convém-te?

Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir, palrar! E o Basílio devia vir às duas. Era um dia divertido, bem preenchido...

Foi logo à cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, a saber se estava melhor.

- Que sim, que sim! - gritou logo Luísa. - E para o tranqüilizar, para que ele não viesse: - Que estava boa, que até talvez saísse...

As rosas, sim, é que vinham a propósito. Foi ela mesma pô-las nos vasos, olhando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava interessante, cheia de incidentes...

E às duas horas, vestida, veio para a sala, pôs-se ao piano a estudar a Medjé de Gounod, que Basílio trouxera, e que a encantava agora muito, com os seus acentos suspirados e cálidos.

- Às duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos embrulhavam-se no teclado. "Já devia ter vindo, Basílio!" - pensava.

Foi abrir as janelas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sôfregos que Luísa fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já nervosa.

Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada; batia-lhe o coração. A carruagem passou...

Três horas já! O calor parecia-lhe maior, insuportável; sentia-se afogueada; foi cobrir-se de póde-arroz. Se Basílio estivesse doente! E num quarto de hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-ia escrito nesse caso!... Não viera, não se importara! Que grosseiro, que egoísta!

Era bem tola em se afligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! Foi um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram num frenesi a gaveta, ao se abriu logo, um pouco perra. Pois bem, não o tornaria a receber!

(continua...)

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