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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de saírem da quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado; e, dando com aqueles dous oficiais superiores, concertou-se rapidamente, fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné, um instante firme, mas logo bambeou.

- Abaixe a mão, fez o general. Que faz você aqui?

Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele obtivera licença para ir em casa, mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.

- Então como vão as cousas? perguntou o general.

- Não sei, não “sinhô”.

- Os “homens” desistem ou não?

O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os cabelos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram feias: malares salientes, testa óssea e todo ele anguloso e desconjuntado.

- Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.

- Do Piauí, sim “sinhô”.

- Da capital?

- Do sertão, de Paranaguá, sim “sinhô”.

O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmá-lo, resolveu falar-lhe com doçura.

- Você não sabe, camarada, quais são os navios que “eles” têm?

- O “Aquidabã”... A “Luci”.

- A “Luci” não é navio.

- É verdade, sim “sinhô”. O “Aquidabã”... Um “bandão” deles, sim, “sinhô”.

O general interveio então. Falou-lhe com brandura, quase paternal, mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:

- Bem, descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”. Os dous generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma da estação. A pequena estação tinha um razoável movimento. Um grande número de oficiais, ativos, reformados, honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. O general era mais conhecido, em virtude de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito.

Havia uma única mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismênia... Coitada!... Ficaria boa?

Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas, mas ele as conteve com força. Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.

A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrépito, apitando com fúria e deixando fumaça pesada pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.

Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina era um tronco de cone que avançava para a frente; e, com aquela banda roxa e casaquinha curta, parecia ter saído, fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles.

- Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorário.

- Viemos pela quinta, disse o almirante.

- Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por aí, à toa, sem saber como, não vai comigo... O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente:

- Conheço bem esse negócio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em Curuzu...

- A cousa foi terrível, acrescentou Bustamante.

O trem atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso; a locomotiva, muito negra, bufando, suando gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de ciclope, avançava que nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim. Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados.

Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de trás.

A cidade andava inçada de secretas, “familiares” do Santo Ofício Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.

(continua...)

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