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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Vosmecê não quis aparecer mais em casa do Cordeiro? Desconfiou com o trombone? Pois olhe: Eu, noutro dia, fiz um estrupício doido no pequeno. E estava só dizendo: Ah! se nhozinho estivesse aqui chamava uma cobreira grossa desses manos.

Depois do café saíram. Paulo, porém, para livrar-se do mulato, despediu-se ao portão, tomando um bonde.

Dona Júlia passou o dia em torturas, preocupada com o aluguel da casa. Se um bonde parava perto, logo alarmada, invocava Nossa Senhora, receando a presença do cobrador, temendo o escândalo.

"Que diriam aquelas mulheres da vizinhança, a gorda, principalmente, que ria de tudo?" Dava-lhe maior cuidado a opinião dos vizinhos do que o próprio vexame. Resignava-se a todo sofrimento, mas a idéia de ser tida por uma caloteira, amofinava-a. Lembrando-se, porém, do filho, animou-se. Ele, por certo, já entregara o dinheiro à senhoria, e como até à tarde ninguém aparecesse, tranqüilizou-se.

Até horas altas da noite esteve a pensar, acotovelada à cômoda, diante dos santos, mas, cedendo à fadiga, deitou-se e adormeceu, acordando de madrugada, em sobressalto, como se houvesse sido sacudida por alguém. O seu primeiro pensamento foi para o filho: 'Teria ele entrado? Quem lhe abrira a porta? Felícia..." Levantou-se, foi ao quarto negra que já enrolava a esteira:

— Paulo veio, Felícia?

— Não senhora.

— Não veio!?

— Que eu visse, não, senhora.

Ficou parada à porta do quarto a olhar. Era a primeira vez que o filho pernoitava fora. Que teria acontecido?

— Hein, Felícia?

— Senhora...

— Paulo... Quem sabe se aconteceu alguma coisa?!

— Qual o quê, minh'ama. Nhonhô é moço, ficou com algum companheiro. — Não...

Apreensiva, deixou-se estar à porta do quarto, pensando.

— Homem não tem perigo, minh'ama.

Sem responder, a velha foi caminhando para a sala. Lembrava-se do desaparecimento de Violante. Que fatalidade era essa que assim lhe ia levando os filhos, um a um? Que grande crime teria ela cometido para que Deus a condenasse a tão duro castigo? Abriu com cuidado a porta do quarto do filho e espiou: a cama estava feita, com os lençóis muito esticados, alvejando. "Que teria acontecido, Deus do céu!" E entrou, com olhares pelos cantos, como se procurasse alguma coisa.

Aquela companhia do Mamede dava-lhe cuidado. Conhecia-o bem. No tempo do falecido volta e meia era um recado, um pedido: porque o mulato fora preso num barulho ou apanhado numa casa de jogo.

Duma feita, deixando um homem por morto, com uma navalhada,

respondera a júri, sendo absolvido à força de empenhos, que até políticos haviam trabalhado por ele. E Paulo que o não deixava! Vão ver que andou por aí de pagode com o perdido. Suspirou.

— Qual! Deus não tem pena de mim...

Eram onze horas quando bateram à porta. Felícia não estava, tinha ido à venda. Dona Júlia estremeceu: "Quem será, meu Jesus..." Espiou por entre as rexas da rótula e empalideceu reconhecendo o cobrador da casa. Para evitar o escândalo abriu a porta, convidou-o a entrar, muito vexada, dizendo "que o filho saíra para receber".

O homem mirou-a sacudindo o berloque da corrente.

— Mas eu não posso estar a fazer esta caminhada todos os dias, minha senhora. Anteontem a senhora disse-me que seu filho iria levar-me o dinheiro: não foi... Francamente, isto já parece caçoada.

— Tenha paciência; a vida está hoje tão difícil...

— Ah! sim...

— Ele vai hoje, talvez já tenha ido.

— Eu é que não volto cá; diga-lhe isto mesmo. E, com um risinho mau: Começa bem, não há dúvida: logo no primeiro mês. Ao sair, declarou: Que iria ter com o fiador se até a tarde não recebesse o dinheiro.

— Tenha paciência, meu senhor. — Passe bem.

Deu as costas e foi resmungando. Dona Júlia ficou como sufocada e fechando a porta, atirou-se ao sofá, soluçando. Caindo a noite sem que houvesse notícia de Paulo, numa resolução desesperada, ela foi à caixa em que guardava as jóias e pôs-se a escolher algumas para levar ao penhor.

Quais haviam de ser? Tinha o crucifixo de ouro, velha relíquia de família, que fora de sua mãe; beijou-o e, veneradamente, pô-lo de parte, sobre o travesseiro. Tomou uma medalhinha esmaltada — os "olhos de Santa Luzia", figas de coral, de azeviche, que as crianças haviam usado contra o quebranto; depois uma grossa pulseira, dos anéis com pedras, uma fivela de ouro e a medalha do falecido com o monograma a brilhantes. Mirou-a muito tempo, com remorso, supesou-a, abriu-a: em cada uma das faces, sob lâminas de vidro, enroscava-se um anel de finos cabelos louros: eram dos filhos; retirou-os e, fechando a medalha, suspirou. Felícia acabava de limpar a cozinha, quando ela a chamou, dizendo: que iam sair. A negra encaroua, espantada:

— Paulo não aparece, não sei por onde anda e eu não quero esse homem da casa aqui todos os dias. Vou empenhar umas jóias e, como não conheço as ruas...

— Se fosse de dia a gente podia ir ao Monte de Socorro, mas de noite, só nessas casas. Minh'ama quer ir assim mesmo? — Vamos.

(continua...)

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