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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Às ruínas daquele rosto ficara a doce consolação do luar daqueles olhos..

O venerando sexagenário arredou afetuosamente as e magras da avó e colo crianças, tomou as mãos rugosas as longamente aos lábios.

Beijava, nas rugas daquelas mãos, a suave recordação dos bons idílios dos vinte anos.

Raul Pompéia

IDÍLIO RETROSPECTIVO

Jamais dous entes se amaram tanto.

Um era para o outro, e ambos para o amor; um amor egoísta, feroz, exclusivo, selvagem, adorável, único.

Tanto ardor era um perigo.

As fogueiras imensas correm sempre o risco de morrer depressa.

Mas aquele amor parecia inextinguível como o fogo de Vesta.

Durante o dia, viviam na comunidade do seu afeto, idolatrando-se mutuamente, com toda a energia de adoração que o olhar possui. Durante a noute, a ilusão do sonho prolongava deliciosamente a ventura dos dias...

Depois, separaram-se, por uma fatalidade... Cada um sepultou religiosamente no mais sagrado recôndito de sua alma a relíquia rara e santa daquela paixão...

Veio então essa cousa terrível que se chama o tempo...

Um ano... dous anos... quarenta anos passaram-se sobre aqueles peitos.

E cada ano que passa é uma túnica de pedra que reveste os corações.

Ela passara quarenta anos no Sul, ele os passara no Norte.

Agora encontravam-se os velhos.

Ela começava a ficar corcunda, a multidão dos netinhos comprimia-se-lhe timidamente nos joelhos, pedindo bênção. O formoso rosto de outrora era uma ruína então; sentia-se, a subir, a hora dos anos. Aqueles lábios que mal se viam, tinham saudade dos lábios de quinze anos, que tão lindos sorrisos souberam fazer... Apenas os olhos, macios como a luz da lua, os dous grandes olhos, eram os mesmos ainda.

Parece até que as sobrancelhas de prata os faziam mais belos. Restava essa compensação.

Às ruínas daquele rosto ficara a doce consolação do luar daqueles olhos..

O venerando sexagenário arredou afetuosamente as e magras da avó e colo crianças, tomou as mãos rugosas as longamente aos lábios.

Beijava, nas rugas daquelas mãos, a suave recordação dos bons idílios dos vinte anos.

Raul Pompéia

MOCINHA

"Deus me dê forças para ser calmo", pensou Arsênio, sentando-se depois de não sei quantas voltas pelo gabinete. Atordoava-o a terrível certeza. Esteve alguns segundos à cadeira, mãos pendidas como em delíquio, olhar imóvel, magnetizado numa pausa de estupidez pelo brilho fixo, vivo do verniz da escrivaninha, num ângulo que a luz feria.

Por fim bruscamente, como sacudindo o entorpecimento, levantou-se e foi buscar ao guardarelógio uma pequena chave de ouro que usava na corrente, talismã secreto de namorado e perene intriga dos amigos curiosos.

Sentado novamente, diante da pasta do trabalho, abriu com a chave uma gaveta à esquerda. Estava cheia de cartas, cartas em desordem, algumas abertas, mostrando nas folhas de cores pálidas estampas mínimas de pombos e flores, palavras de ternura que outras folhas truncavam encobrindo, cartas de amor d'onde evolava-se uma nuvem de perfumes muito tempo guardado, como a saudade dos antigos beijos.

Arsênio debruçou-se sobre as recordações.

Casara pela razão profunda de que eram vizinhos.

Era impossível afrontar o narcótico das ordenações e do Melo, amenizadas ainda pela comprovação textual que tem o incomparável atrativo de ser latim. Dormir diante da preleção era escandaloso. Ao menos, no tempo das chamadas o terror alertava.

Só havia um partido: ficar em casa. Ver passar o Capiberibe debaixo do sol e os matutos pelas pontes brancas, abalados sobre os jacás, ao chouto dos cavalinhos magros, valentes, encrustados de estrume seco nas ancas; ouvir do catre bambo de lona e pinho os gritos do cargueiro, as chicotadas no ar, ou a lamúria inacabável dos mendigos: "Pelas cinco chagas de Cristo! meu devoto... Uma esmolinha pelo divino amor de Deus!..." vozes de cegos no fulgor da luz, que com a temperatura das horas eram de um efeito de aborrecimento sem nome.

No principio lia, mas o clima venceu e a madraçaria acadêmica apoderou-se dele com todos os sintomas de morbidez incurável.

O companheiro de casa falava-lhe dos dias frios de S. Paulo. Como seria bom dormir num dia frio... Ele tinha de padecer o suplício único da preguiça quente, sob o cancã de reflexos espelhados do rio para o teto.

Erguia-se sobre o cotovelo para sorver o refrigério do coco verde e recaía.

De espaço a espaço, vibrava o silvo de uma locomotiva partindo; às vezes o rugido longo de um paquete ancorado diante da Lingueta. Era o tempo a correr. Bem lhe importava; a preguiça não tem horário.

- Mala para o Sul, dizia-lhe da janela o companheiro, olhando para o mastro dos sinais danavegação, sobre a cidade.

Ele com um bocejo, sem mesmo abrir os olhos:

- Mala para o Sul?...

(continua...)

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