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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

A primeira idéia de D. Branca foi pedir socorro da janela, alarmar a vizinhança, salvar a sua responsabilidade, mesmo porque não tinha àquela hora quem fosse chamar o médico ou prevenir a Evaristo. O Antônio era indispensável, a ama não saía à rua, e ela, D. Branca, estava em trajos muito caseiros para se apresentar a qualquer estranho. Que falta que fazia o Raul!

A ama, sem largar a Julinha, desceu em procura do vidro de éter.

— Depressa, rapariga, depressa! - bradava a mulher do secretário, atônita no meio da casa.

Felizmente Adelaide arriou os braços, como extenuada, e os gritos foram-lhe morrendo pouco a pouco, dolorosos e cansados, na garganta.

— Oh meu Deus, que aflição me faz isso! — imprecava D. Branca.

— Não é nada, minha senhora, não é nada... — dizia o Antônio numa voz conciliadora. — E bom desabotoar-lhe a roupa... Foi um ataque...

— Espera, Antônio, espera, que eu já desabotôo.. . Não saias daqui.. traze um copo com água.

O copeiro obedeceu, enquanto ela ia afrouxando a roupa de Adelaide.

Veio o éter, veio a água, fizeram-se fricções, chamaram muitas vezes pelo nome da doente, a ver se ela acordava, cobriram-na com um lençol desde os pés até o pescoço, colocaram-lhe a cabeça nos travesseiros; mas a esposa do bacharel não dava sinal de vida.

— O coração está batendo? — perguntou inquieta, a ama. D. Branca encostou o ouvido no peito de Adelaide.

— Está, sim... está batendo devagarinho.

— E agora? — quis saber o Antônio, pronto a retirar-se.

— Agora — ordenou D. Branca - toma um tílburi e vai, vai, correndo, avisar ao marido dela, no Banco Industrial. — Sabes onde é?

— Sei, sim senhora. — Pois vai.

O criado atirou-se pelas escadas, mais veloz que um andarilho.

D. Branca ficou à beira do leito, muito nervosa, cheia de desapontamento, velando a enferma.

Adelaide parecia dormir, numa imobilidade de cadáver, os olhos fechados, a boca entreaberta, mal respirando.

A esposa do secretário esfregava-lhe a testa e os pulsos, dando-lhe a cheirar éter, enxugando-lhe o suor que porejava do rosto. De instante a instante mandava um olhar ao espelho do toucador. — Estava tão pálida!

Afinal, Adelaide abriu os olhos com um largo suspiro que fê-la estremecer toda.

— Quer beber um pouquinho d'água? - inquiriu Branca.

A esposa de Evaristo não respondeu; olhou-a, com os olhos muito lânguidos, muito mortos, encarando, em seguida, a ama, que estava em pé a seu lado. Mas a mulher do secretário derramou algumas gotas de éter num copo e deu-lhe a beber o calmante.

— Que horas são? — perguntou Adelaide numa voz débil que lhe saía do fundo do peito com outro suspiro de alívio.

— Vai para as duas... Descanse, que o Sr. Evaristo não pode tardar...

Com efeito, o bacharel não tardou. Para isso é que havia tílburis na praça e boleeiros de encomenda. Subiu a escada num vôo.

Adelaide estava melhor, muito melhor, e já se sentava na cama; recebeu-o com lágrimas, atirando-se a ele.

— Mas que foi?... que foi? — perguntava, aflito, o marido.

A esposa do secretário explicou tudo; uma crise de nervos, um desequilíbrio...

má digestão, talvez.

— Uma crise? Mas não chamaram médico?

Adelaide continuava a soluçar com a cabeça no ombro de Evaristo.

— Como chamar médico, Sr. Evaristo, se não havia por quem?...

— E o Antônio?

— O Antônio foi avisá-lo ao Banco... ora, o Antônio!

— Deixavam-te morrer, minha mulher, deixavam-te expirar à míngua! — disse o bacharel transbordando ironia. — Onde há dinheiro falta piedade... Mil vezes a Cidade Nova!

— Que quer o senhor dizer com isso? — perguntou D. Branca, ofendida.

— Que quero dizer com isto? Nada, excelentíssima, absolutamente nada.

— O senhor ofende-nos, a mim e ao Lulu...

— Eu, ofendê4a? - tornou Evaristo com um sorriso de escárnio.

— Sim, senhor: ofende-nos, tanto mais quanto nunca o maltratamos... sua senhora sempre foi muito bem tratada em nossa casa.

— Perdão, eu não vim discutir.

— Não vem discutir, mas vem ofender a quem nunca o ofendeu... Isto mesmo hei de dizer ao Lulu...

E a orgulhosa D. Branca Furtado, num assomo de cólera, que nada tinha de nobreza, embarafustou, resmungando, escadas abaixo.

— Pro diabo que a carregue! — explodiu Evaristo.

Adelaide não teve tempo de lhe tapar a boca. A frase saiu inteira, completa, dos lábios do jacobino.

— Ao dinheiro oponho eu a dignidade, morra, embora, na miséria! — continuou, afagando os cabelos da esposa.

E seguiu-se uma cena muda de carinhos entre os dois.

O próprio bacharel tinha lágrimas nos olhos.

CAPÍTULO X

(continua...)

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