Por Adolfo Caminha (1893)
— Maria! repetiu a mesma voz, que ela julgara ouvir, uma voz fina, mas abafada, como se saísse das entranhas da terra.
E logo:
— Sou eu, Maria. É o padrinho...
De feito, João da Mata vinha se chegando, pé ante pé, sutilmente, segurandose à parede, equilibrando-se na ponta dos pés, como um ladrão, sem o menor ruído, com estalinhos de juntas.
Maria encolheu-se toda debaixo do lençol, duvidando. Tremia como um doente de sezões embiocada que nem caracol.
— Não grites, Maria, olha que sou eu, teu padrinho, tornou João da Mata agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se ao punho da rede.
A rapariga respirou forte, como se saísse de dentro de um buraco, e pôde abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda de uma grande comoção. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão dolorosa, que o seu espírito repelia como impossível. Não teve tempo de associar idéias, porque o amanuense foi-se sentando na rede, a seu lado. — O padrinho por ali, no quarto dela, àquelas horas?... Estaria sonhando?
— Padrinho...
— Sou eu mesmo, minha flor... Olha, queres saber uma coisa?... Deixa-me descansar um bocadinho e eu te direi, ouviste?... Espera...
— Mas, padrinho!...
— Olha, não fales alto... Sou eu, estás ouvindo, eu, teu padrinho mesmo... Bico...
Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de João da Mata ali, no seu quarto, àquela hora.
Fez-se uma confusão inextricável, caótica, no seu espírito subitamente assaltado por um turbilhão de idéias sem nexo, disparatadas; o coração pulsava-lhe forte, como se tivesse acabado de fazer um grande esforço; operava-se em seu duplo ser moral e físico um desses abalos extraordinários, que deixam a gente numa prostração invencível. Pela primeira vez em sua vida achava-se frente a frente com um homem, alta noite, no silêncio de um quarto escuro. Mal acordada do terrível pesadelo que acabava de ter, vendo ainda esboçada na sua imaginação a figura hedionda do negro com os bugalhos injetados, a boca abrindo-se num riso nervoso e alvar, o peito à mostra, a venta chata, ela permanecia imóvel, olhando para o escuro como uma idiota.
A luz tinha-se apagado completamente. Ouvia-se a respiração asmática da criada no quarto pegado à sala de jantar. Longe, em algum quintal, ladrava um cão.
Ao calor insuportável sucedia o friozinho bom da madrugada.
João estava em ceroula, nu da cintura para cima. Desde que chegara da festa do Loureiro não fechara os olhos, a fumar no seu cachimbo curto, que preferia às vezes aos cigarros e andava-lhe na cabeça o plano, há muito formado, de ir ao quarto da afilhada uma noite. Nada mais fácil: da sala de jantar, onde dormia agora, ao quarto eram dois passos; o diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente, isto é que era o diabo!... Qual! ela não tinha coragem para tanto, mormente sabendo logo que era ele, o padrinho. — Mãos à obra, João; nada de pensar em asneiras. Isso a gente inventa uma história de embalar crianças, diz que a vida é esta, e... foi um dia uma donzela. Oh! pois ela não é tua afilhada? Demais, meu besta, já lhe pegaste umas tantas vezes no bico dos seios, sem que ela reagisse, a Maria, naturalmente porque sabes encampar a tua autoridade de padrinho. E depois, que diabo! quem arrisca... Um, dois...
E, com um salto, o amanuense levantou-se, dirigindo-se ao quarto da rapariga, cosendo-se às paredes, macio, cauteloso, todo agachado, pisando devagar, no bico dos pés descalços.
A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo.
Ah! como se sentia bem agora, sentado na mesma rede em que ela dormia, sozinho com ela, adivinhando, no escuro, toda a incomparável perfeição de suas formas rechonchudinhas de rapariga nova! O calor brando do corpo dela comunicava-se agora a seu corpo, infiltrando-lhe no sangue um fluido bom e vigoroso.
Sentia-se forte como um touro, ali, assim a seu lado, ele, um pobre homem sem força, um magricela sem carnes.
E Maria esperava, numa aflição, o desenlace daquela trapalhada, que ela não compreendia bem.
Estiveram ambos calados alguns minutos até que o amanuense, escorregando para o fundo da rede, pousou a mão sobre o ombro da afilhada, segredando-lhe — se ela estava com frio?
— Frio?... não...
— Pois olha, na sala de jantar faz um frio dos demônios. Por isso eu vim para junto de ti...
Maria não disse nada.
Então o amanuense começou uma lengalenga, um despropósito de palavras murmuradas como uma oração, numa voz que mal se ouvia, inclinado sobre a afilhada, sufocando-a com seu hálito nauseabundo, roçando-lhe no rosto a ponta da barba.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.