Por Franklin Távora (1879)
Os pais de Maurícia empobreceram da noite para o dia, e faleceram dentro de breve tempo. Com esses dois desastres irreparáveis, um dos quais sucedeu pouco depois do outro, chegaram para Maurícia os dias nefastos. Leis fatais decidiram do seu destino cruamente. O jardim da sua existência mudou-se em região desolada. Enfim – encurtemos esta história – o brilhante inapreciável foi parar no poder de um senhor grosseiro e mau; e porque o espírito que teve a sua liberdade raras vezes se deixa tiranizar, a não ser por um processo lento e artificioso que estava acima da capacidade do marido de Maurícia, fugiu esta do Pará, onde morava, para o Recife, trazendo consigo a pequena Virgínia. Depois de muitos incidentes inteiramente estranhos ao nosso caso, aceitou ela o partido, que lhe fizera um senhor de engenho de Caxangá, para que ensinasse francês e música às suas filhas.
Tornemos a casa de Martins.
O almoço passou sem coisa de maior. Recitativos, então muito em uso, um pouco de canto, um pouco de piano, alguns trocadilhos de Azevedo, insigne neste gênero, e até charadas em que ninguém levava a melhor a Martins, encheram as horas que medearam entre a primeira e a segunda refeição.
As quatro da tarde, Martins convidou os hóspedes a uma digressão pelo sítio.
Pouco adiante da casa, começava um galeria de mangueiras seculares, cujas folhagens, por densas de si mesmas, e por emaranhadas de cipós, não deixavam passar um raio de sol. Era debaixo da abóbada formada por essa vasta coberta de verdura, que estava a mesa. Na extremidade anterior da galeria, ajeitando os galhos, as folhas, os cipós, tinha feito Martins uma como gruta natural de aprazível aspecto. Estavam ali o cozido, os assados e as demais comidas. Na extremidade posterior, via-se outra gruta mais perfeita e de maior âmbito. Aí a Natureza procedera a fantasia. A última mangueira, porventura a primeira em idade e proporções gigantescas, tinha no tronco uma abertura, que vinha do chão até a altura de um homem. Três pessoas emparelhadas caberiam no bojo, que do lado da mesa era inteiramente aberto. Ali dentro, sobre pedras que imitavam as saliências de uma rocha subterrânea, viam-se vinhos, frutas e doces graciosamente dispostos.
— À proverbial hospedagem e ao fino gosto de Martins devemos este jantar bucólico, digno de ser decantado pela musa de Mantuano – disse Artur, tanto que seus olhos deram com aquela risonha maravilha.
— Isto está soberbo – esplêndido! – acrescentou Salustiano.
— Esplêndido, não – observou Azevedo. Nem um raiozinho de sol penetra aqui.
— Digo esplêndido no sentido moral – retorquiu Salustiano.
— No sentido moral! – exclamou Azevedo. Tudo isto é muito belo, mas pertence à matéria.
— Não te aborreça, senhor. O que eu quero dizer – e todos os homens de talento por certo me entenderão – é que o Martins confirmou com esta obra...
— Que obra? – inquiriu Artur.
— Cobra! Pois aqui há cobra? – perguntou Azevedo.
— Deixem que eu acabe – tornou Salustiano. Quero dizer que Martins é o primeiro poeta desta estrada.
— Ainda as senhoras não viram a melhor – ajuntou Eugênia, a quem muito aprazia o caminho que levava a festa dos seus anos.
— Mostre-nos o melhor, o melhor, D. Eugênia – disse o futuro estudante de Medicina.
— O melhor está nas duas grutas – disse ingenuamente D. Rosa.
— Nas duas grutas! – repetiu Azevedo. Sim, nas grutas é que costuma haver o melhor.
— Aproximem-se – prosseguiu D. Rosa – venha ver, D. Maurícia chegue para cá, Sr. Dr. Ângelo. Que linda coisa, não é?
E a anciã indicava o trabalho de Martins.
— É verdade. Tem mãos este Martins – disse Salustiano.
— E pés, também – acrescentou Azevedo.
— Uma destas grutas – disse Martins – é mitológica, a outra, pode-se dizer, cristã ou antes católica.
— A gruta de Calipso está insigne – observou Ângelo.
— E a dos vinhos, não? – perguntou Sinhazinha.
— Pudera, não! – respondeu Azevedo.
— A gruta de Calipso! – exclamou Artur, aproximando-se. Grande Martins! Eu logo vi que, andando pela Ilha de Chipre, não havias de perder o modelo das morada da deusa. Em que tempo andaste por lá?
— Mas, qual é a outra? – indagou Maurícia com ares de curiosa.
— É a do padre Aubry – respondeu Martins. É a gruta que vem apontada em Átala.
— Muito bem, muito bem – tornou Maurícia. Dou-te os parabéns, Eugênia, pela festa original que o teu natalício inspirou a teu marido.
— E dizem que os poetas não servem para maridos – observou Artur.
— Qual será dentre as senhoras presentes que deverá ocupar esta cabeceira de mesa? – perguntou Azevedo.
— É a Maurícia – disse Eugênia.
— Eu?
— Ótima escolha.
— Muito bem. Não podia ser melhor.
— Mas quem há de ser o Telêmaco? – observou Salustiano.
— Olham como se inculca o freguês – disse Azevedo a meai voz, que todos ouviram.
— O Telêmaco há de ser...
— Pois isto ainda é objeto de dúvida? O Telêmaco é Ângelo — disse Artur, revelando curto despeito.
— E quem será Átala?
Eugênia acudiu logo:
— É Sinhazinha.
— Eu, não – disse esta. Átala deve ser Virgínia.
— Eu já sou Virgínia – retorquiu esta com toda a graça.
— Bravo! – clamou Salustiano.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.