Por Franklin Távora (1878)
Seriam nove horas quando de junto das cangalhas e cargas que estavam atiradas a um canto de rancho, rumor suspeito se fez ouvir distintamente por Francisco a quem ainda o sono não tinha dado a respirar os seus deliciosos narcóticos.
Francisco era prevenido, e armará a rede perto da entrada que estava livre. Ouvindo o ruído e tendo certeza de que pela porta donde ele guardava, como cão fiel, a casa adormecida, não pressentirá entrar ai viva alma, sentou-se tão cautelosamente como pôde na rede, e dai volveu vistas perscrutadoras ao lugar donde lhe chegavam os sons suspeitos.
Não fossem resultado a sua inspeção. Um vulto rastejava por entre os objetos lançados a esmo no fundo do alpendre.
Quem era? Por onde entrará quem quer que era?
Estas interrogações apresentaram-se logo no espirito do matuto, que por impressão de natural superstição julgou ver na forma vaga e indecisa que se agitava sorrateiramente, senão o Valentão-da-Timbaúba, ao menos o seu espectro ou a sua alma malfazeja.
O vulto semelhava um cão e, a uso deste animal, andava sobre quatro pés, posto que lentamente, acusando a intenção de iludir, pela brandura dos movimentos, o sono dos incautos.
Francisco, depois de detida observação, convenceu-se enfim de que o desconhecido era vivente e arrastava consigo um volume tirado da bagagem comum.
Então todos os espíritos, um momento esmorecidos e vacilantes, voltaram a Francisco por ventura mais fortes e viris que dantes. Quem estava ali não podia ser senão um ladrão, um sucessor de Valentim no ignóbil e torpe oficio de defraudar os inofensivos viageiros, justamente quando, em lugar ermo e estranho, mais direito tinham á boa hospedagem dos moradores.
Desceu-se de manso e manso da rede, armou-se cum sua faca que ele tinha metido entre as pontas de uma ripa, que vinha morrer no portal mais próximo, e em vez de ir no encalço do desconhecido quando este desapareceu por traz de um montão de cangalhas, rodeou por fora a garapeira, e correu ao seu encontro do lado da cavalariça na altura em que presumiu teria ele de sair.
Este não se fez esperar; e o matuto calculara com tanta exatidão a distancia que se metia entre se e ele, que foi inclinar-se ao pé da própria abertura do envaramento por onde em menos de um minuto o estranho visitante poz a cabeça de fora.
Cair-lhe então com as mãos sobre o pescoço, tendo a faca atravessada na boca, foi ação que Francisco obrou em um abrir e fechar d’olhos.
- Damião, Victorino, seu Ignacio, acudam cá sem demora, que o cabra está pegado, e bem pegado! gritou o matuto com quantas forças tinha em si.
Um tiro que se tivesse desfechado subitamente naquele ponto, não produziria tão grande arruido e sobressalto como a voz de Francisco alterada pelo inopinado do acontecimento e pelo esforço usado contra o desconhecido.
Tontos do sono e da surpresa, apresentam-se os rancheiros prontamente no lugar da ação. Enquanto uns rodeavam a casa, outros passavam do outro lado através das varas. Este vem com a faca descascada, aquele com a pistola armada, seu companheiro com a catana, o outro com o facão, prestes todos eles a cair sobre o invasor.
Entretanto o ladrão, quase todo de fora, não obstante a força empregada por Francisco para o Ter seguro entre os pés dos enchameis, debatia-se com tal violência e animo, que nas mãos de outrem que não fora Francisco, já teria logrado escapar-se.
Senão quando apresenta-se o dono da garapeira, trazendo acesa a candeia da sua serventia. O ladrão já safo e de pé lutava corpo a corpo com Francisco, despendendo hercúleos esforços a fim de fugir de suas unhas.
Quando a luz esclareceu o recinto do conflito, geral foi o espanto dos circunstantes.
Olhando para seu contendor, Francisco sentiu-se cobrir de vergonha e tristeza. Aquela luta ingente tinha sido sustentada com ele por um rapazito que não representava mais de doze anos.
Entretanto estava ali um Hércules. Aquele braço teria botado abaixo os de Manoel Francisco e de Victorino reunidos, visto que tinha podido com os de Francisco, que era apontado em todos os ranchos, desde Goiana até o
Recife, como o primeiro pegador de queda-de-braço daquelas alturas.
- Lourenço! Demônio! Ladrão sem vergonha! Exclamou enfurecido o velho Ignacio, os olhos postos no ator principal daquela cena de desordem e escanlado. Quando quererás entrar no bom caminho, coisa ruim e desprezível? Soltem-me. Quero ir-me embora – respondeu Lourenço, rugindo de raiva, e revolvendo-se entre os braços dos matutos a quem Francisco o tinha abandonado logo que reconheceu nele os anos infantis que na escuridão o fizeram ter por forte e varonil atleta.
Que menino! disse Francisco, correndo-o com a vista de cima a baixo. Tem força que nem um touro.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.