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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Havia já lá, na sala do Major, um jovem trajado com elegância e certo requinte de mau gosto, porém, à última moda. Sobre o colete brilhavam-lhe a grossa cadeia do relógio, guarnecida de uma infinidade de penduricalhos, a luneta com seu competente trancelim, e no peito da camisa um formidável alfinete de diamante. O colete tinha também uma cintilante abotoadura metálica. Era em tudo o tipo acabado do peralvilho da corte, todo frisado e almiscarado. Era um negociante fluminense há pouco estabelecido no lugar. Fora a princípio mascate ambulante, mas havia um ano que se instalara no Patrocínio com loja e balcão, e segundo dizia estava bem principiado, e em vias de enriquecer-se. Gostava muito de Lúcia, e fazia a corte ao Major que o não olhava com maus olhos; pois via nele um ricaço em esperança, e por conseguinte um excelente genro.

Elias viu com desespero que por toda a parte não encontrava senão rivais. Essa circunstância, porém, longe de desalenta-lo, mais estimulava e incendiava a sua nascente paixão.

O jovem negociante era de conversação jovial e zombeteira. Para se inculcar de fina e polida educação escarnecia de tudo quanto era do sertão, e naquela ocasião, para dar mostras de seu espírito, começou pelas cavalhadas.

- Na corte ninguém iria ver cavalhadas senão para rir-se. É um divertimento do tempo de El- Rei nosso senhor. Que papel ridículo não fazem esses papalvos que ali vão galopar enfeitados de chapéus armados, bandas, fitas e ouropéis como figuras de entremez! . . . E a embaixada, Santo Deus! Há nada mais estúpido! Admira que ainda haja homens sérios, que assim se atrevam a prestar-se ao debique em público sobre um cavalo dançador, repetindo de boca cheia umas asneiras que ninguém entende! É espetáculo próprio só para bobos ou crianças.

- Ora deixe-se disso, senhor Azevedo – replicou o Major – o senhor é bem difícil de contentar. O nosso povo gosta de cavalhadas, é doido por elas. Não podemos ter circos nem teatros, como nas grandes cidades; que remédio senão nos servirmos com a louça de casa!

- Ora! Façam banquetes, façam bailes, façam corridas de touros; não faltam meios de divertir-se o povo; mas deixem-se dessa triste bobice das cavalhadas.

-mas talvez V. Sª. goste de ver estas. Os cavaleiros são excelentes; temos soberbos cavalos, e estão muito bem doutrinados.

- Qual! Nestas coisas, quanto melhor, pior! Quanto mais perfeito anda o negócio, mais ridículo. Antes fosse uma verdadeira mascarada carnavalesca e doidejante; mas aquela cômica gravidade, aquela insípida regularidade, é coisa tristemente ridícula.

- É para V. Sª. , acostumado aos brilhantes e variados espetáculos da corte; mas para nós, pobres roceiros, não há nada mais divertido do que ver um guapo cavaleiro dirigindo um bom e bem doutrinado ginete, tirar uma argolinha, e, encaminhando-se a um palanque, ofertá-la a uma formosa dama. . .

- Sim; e depois com cara d’asno vir volteando o círculo com um molho de fitas na ponta da lança, ao som de músicas e foguetarias, e ir colocar-se de novo muito concho no seu posto. Há nada mais insípido! São coisas que se devem deixar para os artistas do circo eqüestre, que as fazem muito melhores, e disso ganham a vida.

Elias, que ouvia com impaciência as palavras do negociante, que humilhavam e o feriam em seu amor- próprio, julgou que não devia deixar sem resposta os motejos daquele pelintra, com quem, sem saber por que, embirrara desde o princípio, e assentou de confundi-lo e esmaga-lo. Elias, que além de ter feito os estudos preparatórios, por seu amor à leitura tinha adquirido variada instrução, era de feito muito superior ao seu adversário.

- Perdão- replicou Elias com polidez- não lhe acho razão, meu senhor, e entendo que a cavalhada é um divertimento muito nobre, muito agradável, e muito útil.

- Deveras! E não me fará o favor de dizer em quê? . . .

(continua...)

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