Por José de Alencar (1878)
Todo esse encanto, a asa negra do infortúnio o apagou em um momento. Hermano perdeu a mulher; e a perdeu justamente quando sua união ia ser abençoada com um filho.
Um aborto levou Julieta. Suas últimas palavras ao marido foram estas que ela proferiu antes de perder o conhecimento:
— Minha alma não podia separar-se da tua, Hermano.
Desde esse momento o marido caiu em um letargo profundo, que o conservou alheio ao que se passava. Esse estado que se assemelhava à idiotia durou por muito tempo.
O Dr. Teixeira, amigo de infância de Hermano, partindo para a Europa a fim de praticar nos hospitais de Paris, levou consigo o infeliz viúvo, na esperança de que a viagem o arrancasse àquela estupefação em que o deixara a perda da mulher.
Antes de seis meses Hermano voltou da Europa com Abreu que o acompanhara; e foi morar na casa de São Clemente, onde tornou-se o homem que era, quando o encontramos cinco anos mais tarde.
Dias depois de sua chegada deu-se um incidente que não escapou à curiosidade dos ociosos da vizinhança. Pararam no portão duas carroças conduzindo caixotes de tamanho descomunal. O que, porém, mais intrigou os espíritos foi a circunstância de arrombar-se uma parede para introduzir-se os volumes no interior da casa.
Em cada bairro há um ou mais parlatórios, que são uns moinhos onde se tritura a matéria-prima
para o fabrico da opinião pública. Outrora era especialidade das boticas; hoje serve uma loja qualquer. Para aí, para esses pontos, afluem todos os mexericos que os escravos levam às tabernas, e todos os boatos e murmurações que os noveleiros se incumbem de propagar.
Muito se falou dos tais enormes caixões. Na opinião de alguns tinham eles desembarcado na Copacabana e entrado por contrabando na cidade. Outros, admitindo o contrabando, afirmavam que passara pela própria alfândega. Finalmente, choviam as suposições acerca do arrombamento da parede e da carga misteriosa que se ocultara até dos criados da casa, com exceção do velho Abreu.
O Sr. Veiga voltou a ocupar sua antiga casa. Amália teve muitas ocasiões de ver na alameda da chácara contígua passar o vulto, ainda elegante, mas grave de Hermano.
Não lhe causava, porém, o aspecto daquele homem a menor impressão A moça, se guardara as recordações da menina, não as tinha presentes ao espírito. Olhando a casa outrora tão brilhante e admirada por ela, revendo o feliz noivo agora solitário e abatido, nem sequer notava a diferença dos primeiros tempos.
Sua alegria ainda era um esplendor sem crepúsculos.
Capítulo 4
Era noite de partida em casa do Sr. Veiga.
Amália ainda não tinha perdido a sua jovialidade, e continuava a ser uma das mais gentis princesas da moda.
Nesse dia vestira-se mais cedo para ensaiar com uma amiga o dueto que tinham de cantar logo mais. Deixava ela o piano, quando entraram na sala ainda erma duas pessoas.
Uma, o Sr. Borges, era íntimo da casa e aparentado com a família. A outra, que Amália não conhecia, foi-lhe apresentada em termos de anúncio:
— O Dr. Henrique Teixeira, médico muito distinto, ultimamente chegado da Europa; urna notabilidade oftalmológica.
Borges encontrara o companheiro no portão de Hermano:
— Por aqui, doutor?
— Vim jantar com um amigo, e estou à espera de meu tílburi, que mandei voltar às sete horas. Receio que o cocheiro me logre.
—Ah! é amigo do Sr. Hermano?
— Amigo de infância.
Borges convidou o doutor para a partida do parente; e tais e tão repetidas foram as instâncias, que o outro acedeu por fim.
Diversos motivos influíram para aquele convite reiterado. Além do desejo de obsequiar o médico e de arranjar mais um cavalheiro para a dança, Borges fora movido sobretudo pela curiosidade de saber particularidades acerca do excêntrico viúvo.
Depois dos cumprimentos e de algumas ligeiras observações relativas à Europa, Borges dirigiu a conversa para o assunto que mais lhe interessava.
— É verdade que o Hermano está sofrendo da cabeça, doutor?
— Não é exato! acudiu Henrique Teixeira com vivacidade. Tem a razão tão firme e tão lúcida como nunca; e o senhor deve saber que ele mostrou sempre muito tino e bom senso. A prova é que deixando-lhe o pai a livre disposição de sua fortuna, quando não tinha mais de dezessete anos, não só a conservou, como soube aumentá-la, apesar de sua vida elegante.
— Sei perfeitamente; mas tinham-me dito que ele não regula desde que ficou viúvo.
— Com efeito, Carlos sofreu um abalo terrível com esse golpe. A morte de D. Julieta, que ele ainda não esqueceu, nem esquecerá, causou-!he uma espécie de paralisia moral. Durante dois meses não pronunciou uma palavra; vivia mecanicamente; era um autômato movido por um velho criado, o Abreu, cuja dedicação por ele é a de um pai extremoso.
— Tenho visto este criado; se não me engano é quem governa a casa.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.