Por Martins Pena (1845)
Emília — Fala baixo!
CENA VIII
Entra Juca
Juca — Mana, mamãe pergunta por você.
Carlos — De hábito? Também ele? Ah!...
Juca, correndo para Carlos — Primo Carlos.
Carlos, tomando-o no colo — Juquinha! Então, prima, tenho ou não razão? Há ou não plano?
Juca — Primo, você também é frade? Já lhe deram também um carrinho de prata com cavalos de ouro?
Carlos — O que dizes?
Juca — Mamãe disse que havia de me dar um muito dourado quando eu fosse frade
(Cantando:) Eu quero ser frade... (etc., etc.)
Carlos, para Emília — Ainda duvidas? Vê como enganam esta inocente criança!
Juca — Não enganam não, primo; os cavalos andam sozinhos.
Carlos, para Emília — Então?
Emília — Meu Deus!
Carlos — Deixa o caso por minha conta. Hei-de fazer uma estralada de todos os diabos, verão...
Emília — Prudência!
Carlos — Deixa-os comigo. Adeus, Juquinha, vai para dentro com tua irmã (Bota-o no chão.)
Juca — Vamos, mana. (Sai cantando:) Eu quero ser frade... (Emília o segue.)
CENA IX
Carlos, só — Hei-de descobrir algum meio... Oh ,se hei-de! Hei-de ensinar a este patife, que casou-se com minha tia para comer não só a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto!.. Mas por ora tratemos de mim; sem dúvida no convento anda tudo em polvorosa... Foi boa cabeçada! O D. Abade deu um salto de trampolim... (Batem à porta.) Batem? Mau! Serão eles? (Batem.) Espreitemos pelo buraco da fechadura. (Vai espreitar) É uma mulher... (Abre aporta.)
CENA X
Rosa e Carlos.
Rosa — Dá licença?
Carlos — Entre.
Rosa, entrando — Uma serva de Vossa Reverendíssima.
Carlos — Com quem tenho o prazer de falar?
Rosa — Eu, Reverendíssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou muito cansada...
Carlos — Pois sente-se, senhora. (À parte:) Quem será?
Rosa, sentando-se — Eu chamo-me Rosa. Há uma hora que cheguei do Ceará no vapor Paquete do Norte.
Carlos — Deixou aquilo por lá tranqüilo?
Rosa — Muito tranqüilo, Reverendíssimo. Houve apenas no mês passado vinte e cinco mortes.
Carlos — S.Brás! Vinte e cinco mortes! E chama a isso tranqüilidade?
Rosa — Se Vossa Reverendíssima soubesse o que por lá vai, não se admiraria.
Mas, meu senhor, isto são cousas que nos não pertencem; deixe lá morrer quem morre, que ninguém se importa com isso. Vossa Reverendíssima é cá da casa?
Carlos — Sim senhora.
Rosa — Então é parente de meu homem?
Carlos — De seu homem?
Rosa — Sim senhor.
Carlos — E quem é seu homem?
Rosa — Sr. Ambrósio Nunes.
Carlos — O Sr. Ambrósio Nunes!...
Rosa — Somos casados há oito anos.
Carlos — A senhora é casada com o Sr. Ambrósio Nunes, e isto há oito anos?
Rosa— Sim senhor.
Carlos — Sabe o que está dizendo?
Rosa— Essa é boa
Carlos — Está em seu perfeito juízo?
Rosa — O Reverendíssimo ofende-me...
Carlos — Com a fortuna! Conte-me isso, conte-me como se casou, quando, como, em que lugar?
Rosa — O lugar foi na igreja. Está visto. Quando, já disse; há oito anos.
Carlos — Mas onde?
Rosa, levanta-se — Eu digo a Vossa Reverendíssima. Sou filha do Ceará. Tinha eu meus quinze anos quando lá apareceu, vindo do Maranhão, o Sr. Ambrósio. Foi morar na nossa vizinhança. Vossa Reverendíssima bem sabe o que são
vizinhanças... Eu o via todos os dias, ele também via-me; eu gostei, ele gostou e nos casamos.
Carlos — Isso foi anda mão, fia dedo... E tem documentos que provem o que diz?
Rosa — Sim senhor, trago comigo a certidão do vigário que nos casou, assinada pelas testemunhas, e pedi logo duas, por causa das dúvidas. Podia perder uma...
Carlos — Continue.
Rosa — Vivi dois anos com meu marido muito bem. Passado esse tempo, morreu minha mãe. O Sr. Ambrósio tomou conta de nossos bens, vendeu-os e partiu para Montevidéu a fim de empregar o dinheiro em um negócio, no qual, segundo dizia, havíamos de ganhar muito. Vai isto para seis anos, mas desde então,
Reverendíssimo Senhor, não soube mais notícias dele.
Carlos — Oh!
Rosa —
Escrevi-lhe sempre, mas nada de receber resposta. Muito chorei, porque pensei
que ele havia morrido.
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.