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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

Escrivão, lendo − Diz João de Sampaio que, sendo ele “senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. Juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V.S.ª não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V.S.ª naquela noite, depois que lhe dei uma tunda nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V.S.ª que mande entregar-me o leitão. E.R.M.”

Juiz − É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz?

Tomás − É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.

Sampaio − Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?

Tomás − É meu, tenho dito.

Sampaio − Pois não é, não senhor. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)

Juiz, levantando-se − Larguem o pobre animal, não o matem!

Tomás − Deixe-me, senhor!

Juiz − Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dous apartam-se.) Espere, Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.

Tomás − Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.

Juiz − Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas.

E que diz o Sr. Sampaio?

Sampaio − Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceitar, fico contente.

Juiz − Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos. Com efeito! Ora, Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!

Tomás − Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas.

Juiz − Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?

Tomás, tomando o leitão − Sim senhor.

Juiz − Podem se retirar, estão conciliados.

Sampaio − Tenho ainda um requerimento que fazer.

Juiz − Então, qual é?

Sampaio − Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.

Juiz − Ó homem! Citar a Assembléia Provincial? E para quê?

Sampaio − Pra mandar fazer cercado de espinhos em todas as hortas.

Juiz − Isto é impossível! A Assembléia Provincial não pode ocupar-se com estas insignificâncias.

Tomás − Insignificância, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aqueles sujeitos não era insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.

Juiz − Está bom, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer (Saem os dous.) Sr. Escrivão, faça o favor de... (Levanta-se apressado e, chegando à porta, grita para fora:) Ó Sr. Tomás! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!

Tomás, ao longe − Sim senhor.

Juiz, assentando-se − Era muito capaz de esquecer. Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.

Escrivão, lendo − Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V.S.ª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher.”

Juiz − É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?

José da Silva − É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.

Juiz − Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.

José da Silva − Mas, Sr. Juiz...

Juiz − Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.

José da Silva − Eu vou queixar-me ao Presidente.

Juiz − Pois vá, que eu tomarei a apelação.

José da Silva − E eu embargo.

Juiz − Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!

José da Silva − Eu lhe mostrarei, deixe estar.

Juiz − Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.

José da Silva, com humildade − Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.

Juiz − Pois bem , retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!

Manuel João, dentro − Dá licença?

Juiz − Quem é? Pode entrar.

Manuel João, entrando − Um criado de Vossa Senhoria.

(continua...)

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