Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Teodora Carlos, eu esperava que teu padrasto nos deixasse em liberdade para te ocupar de questão muito séria.
Carlos Mas hoje não posso perder a sessão do Senado: o ministério vai receber sova magistral... faz gosto ouvir os oradores da oposição...
Teodora Se não fosse o Senado, inventarias outro motivo para ausentar-te...
Carlos Com efeito... à tarde tenho sessão magna da Sociedade Filopoética.
Teodora É sempre assim! eu te peço dez minutos ao menos...
Carlos (abrindo o relógio) Dez minutos hoje, e amanhã o dia todo para minha mãe.
Teodora Meu filho, tu me confessaste que amavas Corina, e eu abençoei esse amor da beleza e da virtude...
Carlos Sim, minha mãe, eu amo Corina; mas infelizmente ela me parece um anjo amigalhado...
Teodora Se a esqueces tanto! aposto que ainda não lhe confessaste o amor que lhe tributas...
Carlos Ah! os meus olhos devem ter-lhe dito tanto!... E além dos meus olhos, já dez vezes tenho tentado declarar-lhe a minha paixão, mas...
Teodora Acaba...
Carlos Júlia me ridiculariza, e Corina põe-se a rir.
Teodora Não deves falar-lhe de amor em presença de Júlia.
Carlos Se uma nunca deixa a outra! Júlia é intolerável, minha mãe.
Teodora Eu ralharei com ela; tu, porém, sê mais freqüente junto de Corina: tens boa voz... canta a miúdo com ela... mostra-te mais ocupado da sua pessoa...
Carlos Ontem à noite escrevi-lhe um acróstico: ela há de lê-lo na Revista da Sociedade Filopoética.
Teodora A poesia não basta... em regra as senhoras confiam pouco nos poetas...
Carlos Mas eu não compreendo amor sem poesia e sem flores: ontem fiz versos a Corina, hoje hei de trazer-lhe um buquê de violetas, e amanhã dar-lhe-ei a ler o romance Paulo e Virgínia anotado por mim.
Teodora Versos, flores, romances, dá-lhe tudo isso, Carlos, exalta-lhe a imaginação, mas sobretudo sê menos acanhado... menos... não sei como digo, menos contemplativo, e... meramente respeitoso, ama-a como homem deste mundo... as senhoras... as donzelas precisam parecer forçadas a ouvir... a amar... a conceder inocentes favores...
Carlos Corina é um anjo.
Teodora Os anjos da terra têm sempre na sua natureza alguma coisa de material. Carlos, eu quero que Corina seja tua esposa...
Carlos Se eu merecer o seu amor espontâneo.... flor do coração.... isento de cálculos de família.... livre.... sem rigor, nem opressão... porque ela é rica... e eu não toleraria...
Teodora Perfeitamente... oh! Quem se lembra de riqueza! Eu só penso na formosura e na virtude de Corina!
Carlos Oh, muito bem, minha mãe!... Um amor poético!...
Teodora Todavia, receio muito pelo teu amor e pela felicidade de Corina, se não fores mais diligente, mais fervoroso...
Carlos Por que? Por que?...
Teodora Segredo inviolável, meu filho: teu padrasto resolveu casar Corina com Peregrino...
Carlos O mercador de escravos? Eu desconfiava disso: Peregrino compra e vende seus irmãos em Deus: é indigno de Corina...
Teodora E o teu amor pode salvar a vítima...
Carlos Corina esposa de um escravagista!... Minha mãe — hoje mesmo... (ouve dar onze horas) Ah, em vez de dez minutos, um quarto de hora... até logo...
Teodora (detendo-o pelo braço) Escuta ainda...
Carlos Não posso perder a sessão do Senado...
Teodora Cinco minutos só...
Carlos Já sei tudo! Há de ver como procederei...
Teodora Ao menos vai buscar-me o acróstico que fizeste.
Carlos (tirando um papel do bolso) Ei-lo aí... mas não o mostre a Corina: quero que ela o leia com surpresa na Revista da Sociedade Filopoética. (vai sair e encontra-se [sic] com Estefânia)
Cena 7ª
Teodora, Carlos, que logo se retira, Estefânia
Estef. Ah! Carlos, quase que me deste um abraço...
Teodora (indo a Estef.) Estefânia!
Carlos Desculpe: foi ardor parlamentar. (beija a mão de Estef.) Sinto não poder demorar-me. É a hora da sessão do Senado: vou a correr. (vai-se)
Estef. Carlos é um querubim; mas voa com excessivo ardor.
Teodora
Agradeço-te a prontidão com que acudiste ao meu
chamado. Senta-te. (Sentam-se)
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.