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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

O duro credor

Não pode esperar?...

Eu comprei fiado,

Quero ser honrado;

Mas que os meios faltam

O senhor bem vê;

Preciso é pagar?...

Não tenho com quê.

CENA VI

Adriano (só) – Preciso é pagar... boa dúvida! Que é preciso pagar, sei eu; mas como é que um homem sem dinheiro pode pagar suas dívidas? É o segredo que eles me deviam ensinar. Dinheiro... dinheiro... os diabos me levem se eu não o desejo mais do que eles: ora é boa! Tenho eu culpa de não ter nada de meu?... a fortuna é uma rapariga a quem tenho namorado toda minha vida, e a ingrata teimado sempre em dar-me de tábua; mas agora espero ficar às boas com ela. Corramos à casa do meu editor... fica perto... ali defronte; e o bolo inglês?... ah! Chamamos a impagável

Beatriz... ei-la que chega a propósito... senhor Beatriz! Senhora Beatriz!...

CENA VII

Adriano e Beatriz

Beatriz – Aqui estou, senhor; mas por quem é, não me mande procurá-lo em parte nenhuma.

Adriano – Esta noite reuno aqui os meus amigos; vá ao hotel de França e receba lá um bolo inglês, e algumas garrafas de vinho, que lhe entregarão, e durante a minha ausência disponha tudo o que é necessário para esta solenidade um pouco extraordinária em minha casa.

Beatriz – O que é isto pois?... bolo inglês e vinho?... então o senhor tirou a sorte grande no vigésimo, que comprou no outro dia?

Adriano – Sim, modelo das criadas!... (Canta)

O diabo atrás da porta

Não devia sempre estar.

Beatriz – Mas que fortuna foi essa?...

Adriano – Minha sorte vai mudar.

Sinto já por tal ventura

O juízo a me voltar;

E a prova de que estou doido

É que chego a te abraçar!

Beatriz (Sem recusar) – Senhor Adriano, não comece com essas graças.

Adriano – Não tenha receio... Oh! Certamente deve confiar em si mesma... adeus... não esqueça nada. (Vai-se)

CENA VIII

Beatriz, e depois Pantaleão

Beatriz (Suspirando) – Sempre pensei que tivesse o atrevimento de me abraçar! Também de que me servia o abraço de um musicozinho das dúzias?... se eu não recuo tão depressa... mas deixemos estas asneiras. Uma ceia!... ainda trabalho... e depois deita-se a gente tarde... perde-se a noite... e isto acontece à Beatriz formosa, por causa de um músico de meia cara!... ora enfim vamos a ver o que se arranja. (Abre a gaveta) Bem... copos cinco, exatamente, e cada qual de sua qualidade: pratos... nove, entrando dois rachados: aqui há de tudo, desde a louça da China, até...

Pantaleão – Olhem lá em que ela se ocupa... dá de língua como deputado!... Velha rezingueira, é assim que cumpre o nosso contrato?... eu te pago meia moeda por mês, fora os caídos, para observares o procedimento da minha súcia de inquilinos, e entretanto um deles está pondo os trastes da porta para fora sem pagar o que legitimamente me deve, e eu nada sei do que se passa!... olha, que te suspendo o ordenado!

Beatriz – E quem é que está fazendo esse desaforo?...

Pantaleão – O locatário do terceiro andar, que acaba de fazer descer as escadas a dois enxergões e uma esteira!...

Beatriz – já sei o seu destino, senhor; os enxergões vão se encher de novo e a esteira, que já está muito velha, mandaram-na atirar à praia.

Pantaleão – Aceito a explicação; mas sustento o que disse: eu quero que não durmas, e que de dia e de noite observes o que se passa na minha propriedade: olha... põe-te alerta principalmente de madrugada: quando eu tinha as minhas duas vendas era de madrugada que eu fazia o melhor negócio com os pretinhos: aquilo, sim! Hoje era um cordão de ouro por meia pataca, amanhã uma colher de prata por quatro vinténs, depois de amanhã um anel de brilhantes por um martelinho de infusão de gengibre, que eu chamava aguardente... oh! Tudo isso sem bulha, sem matinada, e muito honradamente, muito honradamente!...

Beatriz – Senhor Pantaleão, eu cumpre como posso as suas ordens; mas Vossa

Senhoria bem sabe que eu sou também criada do musicozinho...

Pantaleão – Tudo isso mudará, e principiarei hoje por mandar pôr os quartos na rua a esse insuportável arranha-notas...

Beatriz – Olhe, não hei de ser eu que me ponha diante dele para lhe impedir a retirada: pois o insolente não quis ainda há pouco dar-me um abraço?... e se eu não recuo tão depressa...

Pantaleão – Enfim... devo proceder desse modo; pois o que é esse músico?... um habitante de um terceiro andar: somente farroupilhas moram em tais alturas: deverse-ia proibir os terceiros andares... eles só servem para alojar inquilinos que nunca pagam ao senhorio.

(continua...)

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