Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio — Sim, hei de pôr-me nas pontinhas: jurarei que sou bisneto do imperador da China, e que portanto somos parentes do sol e da lua; creio que vocês por ora se contentam com estas alturas. Ah Gil Brás de Santilhana!...mas...que idéia!...não a devo perder...meus fidalgos, até logo! Vou ver o nosso...o meu irmão marceneiro; contem porém comigo, que ainda hoje hei de fazer brilhaturas!...(Vaise).

Maurício (Seguindo-o até a porta) — Anastácio!...

Leonina (À parte) — Marceneiro!...


CENA V

Leonina, sentada a um lado; Maurício e Hortênsia; Petit entra, acende velas e retirase.

Maurício — E lá se foi correndo!

Hortênsia — Antes nunca tivesse chegado; veio só para envergonhar-nos. Este fatal segredo, que com tanto cuidado ocultávamos de nossa própria filha, ele o revelou, enchendo de amargura aquele coração inocente e o nosso nome e os nossos projetos...

Maurício — Hortênsia, ninguém pode ignorar que Felisberto é meu irmão...Não é acreditável que não saiba isso, e nós já fazemos demais não o recebendo em nossa casa há dez anos.

Leonina (Á parte) — Marceneiro!...

Hortênsia — Mas por que ferir-nos em ponto tão delicado! Olha, se Anastácio não fosse padrinho de Leonina, e não esperássemos que ele venha a instituí-la sua herdeira, por certo que não me sujeitaria às suas brutalidades.

Maurício — E no entanto é sempre a verdade o que ele diz! Ainda há pouco anunciou-nos a miséria, e tu sabes, Hortênsia, que a miséria nos está estendendo as garras!

Hortênsia — A que vêm essas tristes idéias?...dentro em breve ajustaremos o casamento de Leonina com o comendador Pereira: a riqueza do genro esconderá a pobreza do sogro; confia em mim.

Leonina (À parte) — Marceneiro!...

Maurício — Sim...abracemos a mais leve esperança...esqueçamos o mal que nos ameaça: creio que pouco tardarão as nossas visitas, convém que nos mostremos alegres.

Hortênsia — E que nos retiremos da sala, pode ser que o comendador chegue primeiro do que Dona Fabiana...

Maurício — Duvido: Dona Fabiana chega sempre cedo demais onde não se precisa da sua pessoa. Eu aposto que ela chega primeiro. (Vão-se)


CENA VI

Leonina (Sentada e muito triste).



Marceneiro! Marceneiro! Como vão zombar de mim aquelas que não valem tanto como eu! Hão de fazer-me em cem pedaços com o serrote de meu tio marceneiro! Dona Luizinha, que tem olhos cor de vinagre, vingar-se-á de meus belos olhos pretos, repetindo: — marceneiro! — Dona Jesuína, que tem mãos de calafate; Dona Sofia, que tem dentes de tubarão; Dona Leocádia, que tem cintura de abade velho, vingar-se-ão de minhas mãos de princesa, de meus dentes de pérolas, de minha cintura de fada, contando a todos que sou sobrinha de um marceneiro!Oh! é horrível! Quando eu supunha que mais cedo ou mais tarde viria a ser condessa ou pelo menos baronesa...é abominável! (Silêncio) marceneiro!...(Chora) marceneiro!...(Desesperada) marceneiro!...(Ouve-se o rodar de uma carruagem). Oh! um carro que pára! Se forem senhoras, não devem suspeitar que eu padeço; (Enxuga os olhos e arranja os cabelos) folgariam com isso...Oh! Coração, esconde as tuas mágoas! Olhos, brilhai! Boca, sorri! Rosto, expande-te! E agora podem chegar, venham todas, porque eu tenho consciência de que sou formosa.



CENA VII

Leonina, Hortênsia, Maurício, e logo depois Fabiana, Filipa e Frederico.

Maurício — Então, que te dizia eu?...aí está a Dona Fabiana rompendo a marcha.

Hortênsia — Leonina, Dona Fabiana e sua filha vêm subindo a escada.

Leonina — Que horrível massada!...(Indo à porta) Chegue Dona Fabiana; chegue Dona Filipa; conheci-as logo pelas pisadas.

Frederico (Dentro) — De ora avante usarei de sapatinhos de cetim para ver se um dia mereço igual felicidade.

Leonina — Não faça tal: Vossa Senhoria mesmo sem sapatos de cetim já se confunde bastante com as senhoras. (Entram os três, cumprimentos, etc).

Frederico (À parte) — Decididamente recebi um cumprimento de mau gosto, ou então um epigrama ferino.

Hortênsia — Como passou de ontem, Dona Fabiana?

Fabiana — Sofri um pouco dos nervos: mas nem por isso quis faltar à minha palavra.

Maurício — É uma fineza de mais que temos de agradecer a Vossa Excelência, mas...creio que sobem às escadas.

Frederico — Quem será?...(A Leonina) — Vossa Excelência não adivinha pelas pisadas?

Leonina — Nem sempre: Dona Fabiana, Dona Filipa, e Vossa Senhoria já aqui se acham.

Frederico — Hei de fazer certa experiência, vindo aqui uma noite sozinho.

Leonina — Dar-nos-á ainda assim muito prazer; mas olhe que se expõe a ser confundido.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...34567...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →