Por José de Anchieta (1587)
Bem junto, pois sois comparsas, ardereis eternamente. Enquanto nós, Deo Gratias!, sob a luz da minha guarda viveremos santamente.
(Faz uma prática aos ouvintes)
Alegrai-vos, filhos meus, na santa graça de Deus, pois que dos céus eu desci, para junto a vós estar e sempre vos amparar dos males que há por aqui. Iluminado esta aldeia junto de vós estarei, por nada me afastarei — pois a isto me nomeia Deus, Nosso Senhor e Rei!
Ele que a cada um de vós um anjo seu destinou. Que não vos deixe mais sós, e ao mando de sua voz os demônios expulsou.
Também
São Lourenço o virtuoso, Servo de Nosso Senhor, vos livra com muito amor terras e almas, extremoso, do demônio enganador.
Também São Sebastião valente santo soldado, que aos tamoios rebelados deu outrora uma lição hoje está do vosso lado
E mais — Paranapucu,
Jacutinga, Morói, Sariguéia, Guiriri,
Pindoba, Pariguaçu,
Curuça, Miapei
E a tapera do pecado, a de Jabebiracica, não existe. E lado a lado a nação dos derrotados no fundo do rio fica.
Os franceses seus amigos, inutilmente trouxeram armas. Por nós combateram Lourenço, jamais vencido, e São Sebastião flecheiro.
Estes santos, em verdade, das almas se compadecem aparando-as, desvanecem (Ó armas da caridade!) Do vício que as envilece.
Quando o demônio ameaçar vossas almas, vós vereis com que força hão de zelar. Santos e índios sereis pessoas de um mesmo lar.
Tentai
velhos vícios extirpar, e as maldades cá da terra evitai, bebida e guerra, adultério, repudiai tudo o que o instinto encerra.
Amai vosso Criador cuja lei pura e isenta São Lourenço representa. Engrandecei ao Senhor que de bens vos acrescenta.
Este mesmo São Lourenço que aqui foi queimado vivo pelos maus, feito cativo, e ao martírio foi infenso, sendo o feliz redivivo.
Fazei-vos amar por ele, e amai-o quanto puderdes, que em sua lei nada se perde. E confiando mais nele, mais o céu se vos concede.
Vinde
à direita celestial de Deus Pai, ireis gozar junto aos que bem vão guardar no coração que é leal, e aos pés de Deus repousar.
(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede.)
Cantemos todos, cantemos! Que foi derrotado o mal! Esta história celebremos, nosso reino inauguremos nessa alegria campal!
(Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição da cantiga choram.) CANTIGA
Alegrem-se os nossos filhos por Deus os ter libertado. Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!
Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!
(Voltam os santos)
Alegrai-vos, vivei bem, vitoriosos do vício, aceitai o sacrifício que ao amor de Deus convém.
Daí fuga ao Demo-ninguém!
Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!
TERCEIRO ATO
Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua guarda, e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.
ANJO
Aimbirê!
Estou chamando você.
Apressa-te ! Corre! Já!
AIMBIRÊ
Aqui estou! Pronto! O que há! Será que vai me pender de novo este passarão?
ANJO
Reservei-te uma surpresa: tenho dois imperadores para dar-te como presa. De Lourenço, em chama acesa, foram ele os matadores.
AIMBIRÊ
Boa! Me fazes contente! À força os castigarei, e no fogo os queimarei como diabo eficiente.
Meu ódio satisfarei.
ANJO
Eia, depressa a afogá-los.
Que para o sol sejam cegos! Ide ao fogo cozinhá-los. Castiga com teus vassalos estes dois sujos morcegos.
AIMBIRÊ
Pronto! Pronto!
Sejam tais ordens cumpridas!
Reunirei meus demônios.
Saravaia, deixa os sonhos, traz-me de boa bebida que temos planos medonhos!
SARAVAIA
Já de nego me pintei, ó meu avô jaguaruna, e o cauim preparei, verás como beberei nesta festa da fortuna.
Que vejo? Um temiminó?
Ou filho de guaianá? Será esse um guaitacá que à mesa do jacaré sozinho vou devorar?
(Vê o Anjo e espanta-se.)
E este pássaro azulão, quem será que assim me encara?
Algum parente de arara?
AIMBIRÊ
É o anjo que em nossa mão põe duas presas bem raras.
SARAVAIA
Meus capangas, atenção! Tataurana, Tamanduá, vamos com calma por lá, que esses monstros quererão por certo me afogar.
AIMBIRÊ
Vamos!
SARAVAIA
Ai, os mosquitos me mordem! Espera, ou me comerão!
Tenho medo, quem me acode. Sou pequenino e eles podem tragar-me de supetão.
AIMBIRÊ
Os índios que não se fiam nesta conversa e se escondem se os mandam executar.
SARAVAIA
Têm razão se desconfiam, vivem sempre a se lograr.
(continua...)
ANCHIETA, José de. Auto da Festa de São Lourenço.