Por Padre Manuel da Nóbrega (1556)
NUGUEIRA: Pois que direi eu, que envelheci nelles, e como homem que foi ferido falo!
GONÇALO ALVAREZ: Pois [se] assim hé, que todos temos huma alma e huma bestialidade naturalmente, e sem graça todos somos huns, de que veyo estes negros serem tão bestiais, e todas as outras geraçõis, como os romanos, e os gregos, e os judeus, serem tão discretos e avissados?
NUGUEIRA: Esta hé boa pergunta, mas clara está a reposta. Todas as geraçõis tiverão tãobem suas bestialidades: adoravão pedras e paos, dos homens fazião deuses, tinhão credito en feitiçarias do diabo; outros adoravão os bois e vaquas, e outros adoravão por deus aos ratos e outras inmundicias; e os judeus, que erão a gente de mais rezão que no mundo avia, e que tinha conta com Deus, e tinhão as Escripturas des ho começo do mundo, adorarão huma bezerra de metal, e não os podia Deus ter que não adorassem os idolos e lhes sacrificavão seus proprios filhos, não olhando as tantas maravilhas que Deus fizera por elles, tirando-os do captiveiro de Faraoo. Não vos parece tam bestiais os mouros, a quem Mafamede despois de serem christãos converteo à sua bestial secta, como estes? Se quereis quoteijar cousa com cousa, cegueira com segueira, bestialidade com bestialidade, todas achareis de hum jaez, que procedem de huma mesma segueira. Os mouros creem em Mafamede, muito visioso e torpe, e põe-lhes a ben-aventurança nos deleites da carne e nos vicios, e estes dam credito a hum feiticeiro que lhes põe a bem-aventurança na vingança de seus imigos e na valentia, e en terem muitas molheres. Os romanos, os gregos, e todos os outros gentios, pintão e tem inda por deus a hum idolo, a huma vaqua, a hum galo, estes tem que há deus e dizem que hé o trovão, porque hé cousa que elles acham mais temerosa, e nisto tem mais rezão que os que adorão as rãas ou os galos; de maneira que, se me coteijardes error com error, cegueira com cegueira, tudo achareis mintira, que procede do pai da mentira, mintiroso desd’o comço do mundo.
GONÇALO ALVAREZ: Bem estou com isso. Mas como são os outros todos mais polidos, sabem ler, escrever, tratão-se limpamente, souberão a filosofia, inventarão as sientias que agora há, e estes nunqua souberão mais que andarem nus e fazerem huma frecha? Ho que está claro que denota aver [desigual] entendimento em huns e outros.
NUGUEIRA: Não hé essa rezão de homem que anda fazendo brasil no mato, mas estai atento e entendereis. Terem os romanos e outros gentios mais policia que estes não lhes veio de terem naturalmente milhor emtendimento, mas de terem milhor criação e criarem-se mais politicamente. E bem creo que vós o vereis claro, pois tratais com elles e vedes que nas cousas de seu mester e em que elles tratão, tem tam boas sotilesas, e tão boas invenções, e tão discretas palavras como todos, e os Padres o esperimentão cada dia com seus filhos, os quais achão de tão boom entendimento que muitos fazem avantagem aos filhos dos christãos.
GONÇALO ALVAREZ: Pois como tiverão estes pior criação que os outros e como não lhes deu a natureza a mesma policia que deu aos outros?
(continua...)
NÓBREGA, Manuel da. Diálogo sobre a conversão do gentio. Com preliminares e anotações históricas e críticas de Serafim Leite. Lisboa: 1954