Por Padre Antônio Vieira (1674)
14. Desta maneira deixou a nossa rainha a coroa e o tudo que pedia o Evangelho: Omnia quae habuit. Mas assim como a deixou sem a deixar, por que a não deixou deixando? Por que não abdicou a majestade, por que não deixou de ser rainha, ou não aceitando a coroa, quando se lhe ofereceu, ou renunciando-a, depois de aceitada? Respondo que esta foi a maior indústria de sua negociação: conservar o cabedal de rainha para granjear ser maior santa. O maior bem, ou o único bem que têm as supremas dignidades do mundo, é serem um degrau sobre o qual se levanta mais a virtude, é serem um cunho real, com que sobe a maior valor a santidade. Santo foi Davi, e santo Abraão, e primeiro Abraão que Davi. Contudo, S. Mateus, referindo a genealogia de Cristo, antepõe Davi a Abraão: Filii David, filii Abraham (Mt. 1,1). Pois se Abraão também era santo, e santo da primeira classe, como Davi, e precedia na antigüidade, por que se lhe antepõe Davi? Dá a razão Santo Tomás angelicamente. Porque ainda que Abraão era santo, e tão santo como Davi, Davi era santo e rei juntamente, o que não concorria em Abraão. A santidade de Abraão, posto que grande, era santidade sem coroa; a santidade de Davi era santidade coroada, e santidade assentada sobre coroa, ainda em grau igual, é maior santidade.
15. E por quê? Porque na majestade, na grandeza, no poder; na adoração, e em todas as outras circunstâncias que acompanham as coroas, concorrem todos os contrários que pode ter a virtude e a santidade; e a virtude conservada entre os seus contrários é dobrada virtude. Ouvi uma das mais notáveis sentenças de Santo Agostinho: Audiat omnis aetas, quod nunquam audivit: Ouçam todas as idades o que nunca ouviram – diz Agostinho. E que hão de ouvir? Fala do parto virginal, e diz assim; Virgo partu suo crevit virginitatem, dum pareret, duplicavit Nestas últimas palavras reparo. Diz Santo Agostinho, que Maria Santíssima concebendo, parindo, e ficando Virgem, não só conservou, mas dobrou a virgindade: Virginitatem, dum pareret, duplicavit. Se falara de qualquer outra virtude, não tinha dificuldade esta doutrina. Mas da virgindade, parece que não pode ser; porque a virgindade consiste em ser indivisível. É uma inteireza perfeita, incorrupta, intemerata, que não pode crescer, nem minguar, nem admite mais ou menos. Pois se esta virtude soberana e angélica não admite diminuição nem aumento, se quando é, sempre é igual e sempre a mesma, como diz Santo Agostinho que cresceu, que se aumentou, e que se dobrou, e foi dobrada no parto da Virgem? Porque foi virtude que se conservou inteira entre seus contrários. A conceição, o parto, o ter filho, o ser mãe, são os contrários da virgindade; e conservar-se Maria virgem, sendo juntamente mãe, foi ser dobradamente virgem: Virginitatem, dum pareret, duplicavit Tais foram as virtudes de Isabel. O maior contrário, e o maior inimigo da virtude, é uma grande fortuna; e quanto maior figura, tanto maior inimigo. A humildade, o desprezo do mundo, a moderação, a abstinência, a pobreza voluntária, na outra gente, são simples virtudes; mas estas mesmas, com uma coroa na cabeça, com um cetro na mão, debaixo de um dossel, e assentadas em um trono, são dobradas virtudes, porque são virtudes juntas com seus contrários. A humildade, junta com a majestade, é dobrada humildade; a moderação, junta com o supremo poder, é dobrada moderação; o desprezo do mundo, junto com o mesmo mundo aos pés, é dobrado desprezo do mundo; a pobreza com a riqueza, a abstinência com a abundância, a mortificação com o regalo, a modéstia com a lisonja, é dobrada pobreza, é dobrada abstinência, é dobrada mortificação, é dobrada modéstia, porque é cada uma delas, não uma rosa entre os espinhos, mas uma sarça verde entre as chamas. E porque a nossa negociante do céu sabia que debaixo do risco está a ganância, por isso teve por maior conveniência não deixar, senão ajuntar a coroa com a virtude; não deixar, senão ajuntar a majestade com a santidade, para que, sendo rainha e juntamente santa, fosse também maior santa, porque rainha.
16. E se quereis ver tudo isto com os olhos em uma admirável figura, ponde-os comigo, ou com S. João, no céu. No capítulo doze do Apocalipse, diz S. João que apareceu no céu um grande prodígio: Signum magnum apparuit in caelo, e, declarando logo qual fosse este prodígio e sua grandeza, diz que era uma mulher, que tinha os pés no primeiro céu, que é o céu da lua: Luna sub pedibus ejus, o corpo no quarto céu, que é o céu do sol: Amicta sole, e a cabeça no oitavo céu, que é o céu das estrelas: Et in capite ejus corona stellarum duodecim.18 Grande mulher, grande prodígio, e grande retrato de Isabel!
Mulher que vivendo na terra, já seus méritos a tinham canonizado e colocado no céu: Signum magnum apparuit in caelo; mulher tão desprezadora das grandezas do mundo, que todas as coisas sublunares as pisou e meteu debaixo dos pés: Luna sub pedibus ejus; mulher tão alumiada e ilustrada das luzes da graça, que, aos olhos de Deus e dos homens resplandecia como um sol: Amicta sole; mulher tão adornada de todas as perfeições e dotes sobrenaturais, que todo o coro das virtudes, como outras tantas estrelas, lhe teciam e esmaltavam a coroa: Et in capite ejus corona stellarum duodecim. Até aqui Isabel santa. E sendo esta prodigiosa mulher tão grande, poderá ser maior? Estando tão alta, poderá subir mais? Estando no céu, poderá ser mais celeste? Sim. E como? Se ao celeste se ajunta o real, e às suposições de santa, as circunstâncias de rainha. Assim foi, e assim o viu o mesmo profeta.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.