Por Padre Antônio Vieira (1670)
Alega por parte do Sacramento o amor, e defende constantemente, que foi maior fineza em Cristo o deixar-se que o deixar-nos, o ficar conosco, que o apartar-se de nós. E como o prova? Em um caso, temos ambos os casos. Na terra de Moab houve três amigas muito celebradas na Escritura: Noemi, Rut e Orfa. Viveram muito tempo juntas essas amigas, como amigas e parentas que eram, até que veio uma hora, como esta hora, em que se houveram de ausentar. Abraçaram-se, choraram muito, fizeram as exéquias à sua despedida, com todas as solenidades que costuma o amor, mas tanto que chegou o ponto preciso em que se haviam de apartar, sucedeu uma diferença notável. Orfa, diz o texto, que se aportou e que se foi para a sua pátria e para o seu Deus, porém Rut enterneceu-se tanto, que de nenhum modo se pôde aportar da companhia de Noemi, e se deixou ficar com ela por toda a vida. Eis aqui quanto vai de amar a amar, e de ficar a partir-se. Quem ama pouco, aporta-se; quem ama muito não se pode aportar. Orfa, que amava pouco, aportou-se e deixou a Noemi; Rut, que amava muito, não a pôde deixar, nem aportar-se dela. São os termos do nosso caso. Chegou a hora precisa em que Cristo se havia de aportar dos homens; Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo; mas nesta amorosa despedida, neste rigoroso aportamento, quem foi a Orfa, que se aportou? Quem foi a Rut, que se não pôde aportar? Uma e outra, por modo admirável, foi a mesma humanidade sacratíssima de Cristo. Ela foi a que nesta mesma hora se aportou, ela foi a que nesta mesma hora se não pôde aportar. Ela foi a Orfa, que se aportou, e se foi para a sua pátria e para o seu Deus: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; e ela foi a Rut, que se não pôde aportar, e recolhendo as espigas, se deixou naquele Sacramento, debaixo das espécies de pão. Logo, maior amor foi em Cristo o deixar-se, que o deixar-nos; logo, maior amor foi em Cristo o ficar conosco, que o aportar-se de nós. Que grosseiros são os afetos humanos para avaliar as finezas do amor divino! Se Cristo se aportara como Orfa, amando como Orfa, fora menor o seu amor; mas Cristo aportou-se como Orfa, amando como Rut. Amar muito, e aportar-se, esta é a fineza. Orla amou pouco, Rut, amou muito, mas nem uma, nem outra finamente; porque Orfa, aportando-se de Noemi, seguiu a sua conveniência, e Rut não se podendo aportar, seguiu a sua inclinação.
Perdoai-me,
sacramentado amor (mas não me perdoeis). Deixarse Cristo com os homens no
Sacramento, foi seguir o amor o seu afeto e a sua inclinação, foi satisfazer ao
desejo: Desiderio desideravi hoc pasha manducare vobiscum;12 foi gosto, foi
alívio, foi satisfação, foi descanso, foi comodidade, sim, que fineza não.
Obrou o amor como amor, mas não obrou como fino. Cair a pedra para o centro,
correr a fonte para o mar, voar o fogo para a sua esfera, é natureza, é
inclinação, é descanso, não é fineza; e isso foi deixar-se Cristo com os homens
no Sacramento. Ainda o coração de Cristo não era humano lá naquele princípio
sem princípio de sua eternidade, e quais eram já então os seus gostos, as suas
recreações, as suas delicias? Eram estar no mundo com os homens: Ludens ia orbe
terrarum, et deliciae meae essa rum filiis hominum.13 Notável dizer! Naquele
tempo, antes de todo o tempo, ainda não havia mundo nem havia homens. Pois, se
não havia homens, nem mundo, como eram as delícias do Verbo estar com os homens
no mundo? Essa é a força da minha razão e da minha conseqüência. Se quando não
havia homens nem mundo, eram as delícias de Cristo estar no mundo com os
homens, que não eram, quais seriam depois as suas delícias estar no mundo com
os homens, que eram: Suos qui erant in mundo?14 Deixar-se Cristo no mundo com
os homens, foi buscar o amor as suas delícias, e por isso não foi fineza; a
fineza foi deixar o mundo e aportar-se dos homens: Ut transeat ex hoc mundo,
porque foi violentar a inclinação, foi sacrificar o gosto, foi martirizar o
desejo, foi vencer em si e contra si a maior repugnância.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.