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#Sermões#Retórica

Sermão das Lágrimas de São Pedro

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Os olhos, e não a língua, os primeiros culpados nas negações de Pedro. O pai de famílias da porábola das vinhas não se queixou das línguas dos cavadores, senão de seus olhos. Assim Pedro chorou amargamente para que os olhos pagassem o ver e a amargura pagasse o negar.

Agora se entenderá facilmente uma dúvida não fácil entre as negações de S. Pedro e as suas lágrimas. As negações de S. Pedro, todas foram pecado de língua. A língua foi a que na primeira negação disse: Non sum.33 A língua foi a que na segunda tentação disse: Non novi hominem.34 A língua foi a que na terceira negação disse: Homo, nescio quid dicis.35 Pois se a língua foi a que pecou, por que foram os olhos os que pagaram o pecado? Por que não condenou S. Pedro a língua a perpétuo silêncio, senão os olhos a perpétuas lágrimas? Porque ainda que a língua foi a que pronunciou as palavras, os olhos foram os primeiros culpados nas negações; a língua foi o instrumento, os olhos deram a causa.

Na porábola das vinhas, foram chamados os cavadores a diferentes horas. Ao pôr-do-sol, mandou o pai de famílias que se pagasse a todos o seu jornal; mas vendo os primeiros, que lhes igualavam os últimos: Murmurabant adversus patrem familias (Mt. 20,11): começaram a murmurar contra o pai de famílias. – O que agora noto (e não sei se se notou até agora) é que repreendendo o pai de famílias aos murmuradores, não se queixou das suas línguas, senão dos seus olhos: An oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum (Mt. 20,15)? Basta que porque eu sou bom, os vossos olhos hão de ser maus? – Assim o disse e assim se queixou o pai de famílias; mas eu não vejo a razão desta sua queixa. A sua queixa era dos murmuradores e da murmuração; os olhos não são os que murmuram, senão a língua. Pois por que se não queixa da língua, senão dos olhos? Porque ainda que das línguas saiu a murmuração, os olhos, e maus olhos, deram a causa. Muitos murmuradores murmuram o que não vêem; mas estes só murmuraram o que viram. Viram que eles tinham trabalhado todo o dia; isso murmuraram: Portavimus pondus diei et aestus.36 Viram que os outros vieram tarde, e muito tarde; isso murmuraram: Hi novissimi unam horam fecerunt.37 Viram que, sendo desiguais no trabalho, lhos igualavam no prêmio; isso murmuravam: Pores illos nobis fecisti.38 E como a murmuração, ainda que saiu pela língua, teve a ocasião nos olhos, por isso são repreendidos e castigados os olhos, e não a língua: An oculus tuus nequam est?39 Assim o julgou contra os olhos daqueles murmuradores o pai de famílias, e assim se sentenciou também S. Pedro contra os seus. As suas negações saíram pela língua, mas a causa e a ocasião, deram-na os olhos. Negou porque quis ver, porque se não quisera ver, não negara; pois ainda que a língua foi o instrumento da negação, castiguem-se os olhos que foram a causa. Se os olhos não foram curiosos para ver, não fora a língua fraca para negar. E pois os olhos, por quererem ver, puseram a língua em ocasião de negar, paguem os olhos por si, e paguem pela língua: pela língua paguem o negar, e por si paguem o ver.

E se não, pergunto: Por que dizem os evangelistas com tão porticular advertência, que chorou Pedro amargamente: Flevit amare? Se queriam encarecer as lágrimas de Pedro pela cópia, digam que se fizeram seus olhos duas fontes perenes de lágrimas, digam que chorou rios, digam que chorou mares, digam que chorou dilúvios. E se queriam encarecer esses dilúvios de lágrimas, não pela cópia, senão pela dor, digam que chorou tristemente, digam que chorou sentidamente, digam que chorou lastimosamente, digam que chorou irremediavelmente, ou busquem outros termos de maior tristeza, de maior lástima, de maior sentimento, de maior pena, de maior dor. Mas que, deixado tudo isto só digam e ponderem que chorou amargamente: Flevit amare? Sim, e com muita razão, porque o chorar pertence aos olhos, a amargura pertence à língua, e como os olhos de Pedro choravam por si e mais pela língua, era bem que a amargura se passasse da língua aos olhos, e que não só chorasse Pedro, senão que chorasse amargamente: Flevit amare. Como à culpa dos olhos em ver se ajuntou com a culpa da língua em negar, ajuntou-se também o castigo da língua, que é a amargura, com o castigo dos olhos, que são as lágrimas, para que as lágrimas pagassem o ver, e a amargura pagasse o negar, e os olhos, chorando amargamente, pagassem por tudo: Flevit amare.

V

Se S. Pedro chora porque negou, por que não chora quando negou, ou depois de negar, senão só depois de sair? Ver e chorar, dois ofícios incompatíveis no mesmo tempo. Davi no enterro de Abne: Ovídio e o pranto de Ariadne, Pedro, como os portugueses na morte de D. Manoel, cobre o rosto para chorar.



(continua...)

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