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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Isto é o que fez S. Pedro naquela ocasião. E Cristo, que fez no nosso caso, que era muito mais apertado? Viu que os cordéis com que traziam presa a adúltera, eram laços com que o pretendiam atar; viu que as pedras da lei que alegavam vinham cheias de fogo por dentro, e que ao toque de qualquer resposta sua, não só haviam de brotar faíscas, mas um incêndio de calúnias; viu que suposta à tenção e astúcia dos tentadores, tanto se condenava condenando, como absolvendo, e que um e outro perigo era inevitável: que conselho tomaria? Não dizer sim nem não, era forçoso, porque até a Sabedoria infinita, quando são tais as tentações dos homens, se não pode livrar delas respondendo em próprios termos. E como entre não e sim, não há meio, que meio tomaria Cristo para se livrar de uma tal tentação? Agora o veremos.

§IV

Para que Cristo se defendesse de três tentações do demônio, bastou-lhe um só livro das Escrituras; para se defender de uma tentação dos homens, não lhe bastaram todas as Escrituras: foi-lhe necessário fazer novas Escrituras. A escritura de Jesus e as palavras misteriosas do festim de Baltasar. Para vencer os homens quis Cristo escrever com seu próprio dedo e na terra.

Levantou-se o divino Mestre da cadeira sem responder palavra. Não havia ali outro papel, senão a terra; inclina-se e começa a escrever nela: Digito scribebat in terra. Esta foi a única vez que sabemos da História Sagrada que Cristo escrevesse de seu punho. Mas enquanto Cristo escreve, e estes tentadores esperam, tomemos ao deserto e às tentações do demônio. Tentou o demônio a primeira vez a Cristo, e rebate o Senhor a tentação com as palavras do capítulo oitavo do Deuteronômio: Non in solo pane vivit homo.15 Tentou a segunda vez, e foi rebatido com as palavras do capítulo sexto do mesmo livro: Non tentabis Dominum Deum tuum.16 Instou a terceira vez, e terceira vez o lançou Cristo de si com outras palavras do mesmo capítulo: Dominum Deus tuum timebis, et illi soli servies.17 Quem haverá que não se admire à vista destas três tentações, e da que temos presente? Estes homens eram letrados de profissão, eram lidos e versados nas Escrituras, e atualmente estavam alegando textos da lei de Moisés. Pois se Cristo se defendeu das tentações do demônio com as Escrituras Sagradas e com os textos da mesma lei, por que se não defende também destes tentadores com as mesmas Escrituras? Mais. Resistindo ao demônio, defendeu-se Cristo de três tentações com um só livro da Escritura, e só com dois capítulos dele. Nas Escrituras que então havia, que são todas as do Testamento Velho, há trinta e nove livros com mais de mil capítulos. Pois se Cristo tinha tantas armas, tão fortes, tão diversas e tão prevenidas, por que se não defende com elas desta tentação? Aqui vereis quanto mais terríveis tentadores são os homens que o demônio. Para Cristo se defender de três tentações do demônio, bastou-lhe um só livro da Escritura; para se defender de uma tentação dos homens, não lhe bastaram todas quantas Escrituras havia; foi-lhe necessário fazer escrituras de novo: Digito scribebat in terra. As Escrituras Sagradas, como notou S. Gregório, são os armazéns de Deus. Destas disse Salomão, comparando-as à torre de seu pai Davi: MilIe clypei pendent ex ea: omnis armatura fortium. E são tais, tão novas, tão esquisitas, e nunca imaginadas pelo demônio as astúcias e máquinas que os homens inventam para tentar, que em todos os armazéns de Deus se não acharam armas com que as resistir, e foi necessário que a Sabedoria encarnada forjasse outras de novo, e se pusesse a compor e a escrever contra estes tentadores: Digito scribebat in terra.



(continua...)

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