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#Sermões#Retórica

Sermão de Nossa Senhora de Penha de França

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Criou Deus, distinguiu e ornou esta formosa máquina do universo em espaço de sete dias. E é admirável a pontualidade e exação com que Moisés, dia por dia, escreveu as criaturas e obras de cada um: Divisit lucem a tenebris, et factum est dies unus. Fiat firmamentum in medio aquarum: et factum est dies secundus. Germinet terra herbam virentem: et factum est dies tertius.9 E assim dos mais. De maneira que fez Moisés um diário exatíssimo de todas as obras da criação. As obras de conservação, isto é, da Providência, com que Deus conserva e governa o universo, em nada são inferiores às da criação, nem no poder, nem na sabedoria, nem na majestade e grandeza. Pois se Moisés escreveu as obras da criação, e compôs um diário tão diligente de todas elas, por que razão, nem ele, nem outro escritor sagrado escreveu as obras da conservação, havendo nestas tanto concurso de causas e tanta variedade de efeitos, tanta contrariedade com tanta harmonia, tanta mudança com tanta estabilidade, tanta confusão com tanta ordem, e tantas outras circunstâncias de sabedoria, de poder, de providência, tão novas e tão admiráveis? A razão é porque as obras da criação pararam e cessaram ao sétimo dia: Requievit die septimo, et cessavit ab universo opere, quod patrarat.10 Pelo contrário, as obras da conservação continuam sempre desde o princípio, continuam, e hão de continuar até o fim do mundo: Pater meus usque modo operatur; et ego operor.11 E as obras que passaram e pararam, era bem que se escrevesse história e ainda diário delas, porém as obras que não acabam, que perseveram, que continuam, e se vão sucedendo sempre, não necessitam de história, nem de memória, nem de escritura, porque elas são uma perpétua história e um continuado diário de si mesmas. Que bem o disse Davi! Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum ejus annuntiat firmamentum. Dies diei eructat verbum.12 Essa revolução dos céus, esse curso dos planetas, essa ordem do firmamento, que outra coisa fazem continuamente, senão anunciar ao mundo as obras maravilhosas de Deus? E que coisa são os mesmos dias que se vão sucedendo, senão uns historiadores mudos e uns cronistas diligentíssimos dessas mesmas obras, que não por anais, senão por diários perpétuos as estão publicando? Dies diei eructat verbum. Tais são as maravilhas de Penha de França. Se passaram e cessaram, e houvera algum sábado, como aquele da criação, em que constasse que tinham parado, então seria bem que se escrevessem; mas como não param, nem cessam, como aqui se vê e consta todos os sábados, em que se resumem os milagres daquela semana, não é necessário que se escrevam, nem se historiem, porque a sua história é a mesma continuação, e os seus diários os mesmos dias. Dies diei eructat verbum: os milagres de hoje são o instrumento autêntico dos milagres de ontem, e os milagres de amanhã dos milagres de hoje; e assim como se vão sucedendo os dias, se vão também testemunhando uns aos outros, lendo a vista, sem escritura, o que na escritura havia de crer a memória. Os gregos, em um dos seus hinos, com elogio singular chamaram à Virgem Maria, diário da divina Onipotência: Diarium unicum Domini creaturas; Diário único do Senhor das criaturas.13 Mas em nenhum lugar, em nenhum trono de quantos esta Senhora tem no mundo, se pode insculpir com mais razão este titulo, que no pé daquela Penha. Diário, porque as suas maravilhas são de cada dia; único, porque só nelas não tem jurisdição o tempo.

Qual vos parece que é o maior milagre de Penha de França? É não ter jurisdição o tempo sobre os seus milagres. Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba. Não só tem poder o tempo sobre a natureza, mas até sobre as coisas sobrenaturais tem poder, que é o que mais me admira. Os milagres são coisas sobrenaturais, e não lhes vale o ser superiores à natureza para não serem sujeitos ao tempo. Grandes milagres foram os da serpente do deserto: todos os enfermos, de qualquer enfermidade, que olhavam para ela, saravam logo. Andou o tempo, e acabaram os milagres e mais a serpente. Grandes milagres foram os da vara de Moisés: ela foi o instrumento com que se obraram todos os prodígios do Egito contra Faraó. Andou o tempo, e acabaram os milagres e mais a vara. Grandes foram os milagres da capa de Elias: em virtude dela, sustentava Eliseu os vivos, sarava os enfermos e ressuscitava os mortos. Andou o tempo, e acabaram os milagres e mais acapa. Grandes milagres foram os da Arca do Testamento: diante dela tornavam atrás os rios, caíam os muros, despedaçavamse os ídolos e morriam subitamente os que se lhe atreviam. Andou o tempo, e acabaram os milagres e mais a Arca. Finalmente, foram grandes, e maiores que grandes, os milagres da primitiva Igreja, em que todos os que se batizavam falavam todas as línguas, curavam de todas as enfermidades, lançavam os demônios, domavam as serpentes e bebiam sem lesão os venenos. Passou o tempo, cresceu a Igreja, e como já não eram necessários para fundar a fé, cessaram aqueles milagres. De sorte que sobre todos os milagres teve jurisdição o tempo. E que só sobre os milagres de Penha de França não tenha jurisdição? Grande milagre! Os outros acabam com o tempo; os milagres de Penha de França crescem com o tempo. O maior encarecimento do tempo, é que tem poder até sobre as penhas; o maior louvor daquela Penha é que tem poder até sobre o tempo. E se os livros são remédio contra o tempo, quem não é sujeito às leis do tempo não há mister livros.

§IV

Quais os livros da História e Milagres da Penha de França? O primeiro é o Evangelho do dia. Significação mística e historial da genealogia da Virgem. Significação mística das gerações da Senhora.

(continua...)

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