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#Sermões#Retórica

Sermão da Quinta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Estando el-rei de Síria em campanha sobre o Reino de Israel, experimentou por muitas vezes que quanto deliberava no seu exército se sabia no do inimigo (4 Rs. 6,13). E imaginando ao princípio que devia de haver no seu conselho alguma espia comprada que fazia estes avisos, soube dos capitães e dos soldados mais práticos daquela terra, que o profeta Eliseu era o que revelava e descobria tudo ao seu rei. Oh! se os reis tiveram a seu lado profetas! Achava-se neste tempo Eliseu na cidade de Dotã; resolve o rei mandá-lo tomar dentro nela por uma entrepresa, e marchando a cavalaria secretamente em uma madrugada, eis que sai o mesmo Eliseu a encontrar-se com eles; diz-lhes que não era aquele o caminho de Dotã; leva-os à cidade fortíssima de Samaria, mete-os dentro dos muros, fecham-se as portas, e ficaram todos tomados e perdidos. É certo que estes soldados de el-rei de Síria conheciam muito bem a cidade de Dotã e a de Samaria, e as estradas que iam a uma e a outra, e muitos deles ao mesmo profeta Eliseu. Pois se conheciam tudo isto, e viam as cidades, e os caminhos, e ao mesmo profeta, como se deixaram levar onde não pretendiam ir? Como não prenderam a Eliseu quando se lhes veio meter nas mãos? E como consentiram que ele os metesse dentro dos muros e debaixo das espadas de seus inimigos? Diz o texto sagrado que toda esta comédia foi efeito da oração de Eliseu, o qual pediu a Deus que cegasse aquela gente: Percute, oro, gentem hanc caecitate (4 Rs. 6, 18). E foi a cegueira tão nova, tão extraordinária e tão maravilhosa, que juntamente viam e não viam. Viam a Eliseu, e não viam a Eliseu; viam a Samaria, e não viam a Samaria; viam os caminhos, e não viam os caminhos; viam tudo, e nada viam. Pode haver cegueira mais implicada, e mais cega, e de homens com os olhos abertos? Tal foi, por vontade de Deus, a daqueles bárbaros, e tal é, contra a vontade de Deus, a nossa, sendo cristãos. Eliseu quer dizer: Saúde de Deus; Samaria quer dizer: cárcere e diamante. E que é a saúde de Deus, senão a salvação? Que é o cárcere de diamante, senão o inferno? Pois assim como os assírios, indo buscar a Eliseu, se acharam em Samaria, assim nós, buscando a salvação, nos achamos no inferno. E se buscarmos a razão deste erro e desta cegueira, é porque eles e nós vemos e não vemos. Não vês, cristão, que este é o caminho do inferno? Sim. Não vês que este outro é o caminho da salvação? Sim. Pois como vais buscar a salvação pelo caminho do inferno? Porque vemos os caminhos e não vemos os caminhos; vemos onde vão parar, e não vemos onde. Tanta é, com os olhos abertos, a nossa cegueira: Percute gentem hanc caecitate.

Segundo caso, e maior. Mandou Deus dois anjos à cidade de Sodoma para que salvassem a Ló e abrasassem a seus habitadores, e eram eles tão merecedores do fogo, que lhes foi necessário aos mesmos anjos defenderem a casa onde se tinham recolhido. Mas como a defenderam? Diz o texto sagrado que o modo que tomaram para defender a casa foi cegarem toda aquela gente, desde o maior até o mais pequeno: Percusserunt eos caecitat ea maximo usque ad minorem (Gên. 19, 11). Quando eu li que os anjos cegaram a todos, cuidei que lhes fecharam os olhos e que ficaram totalmente cegos e sem vista, e que a razão de cegarem não só os homens, senão também os meninos, fora por que os meninos não pudessem guiar os homens. Mas não foi assim. Ficaram todos com os seus olhos abertos e inteiros como dantes. Viam a cidade, viam as ruas, viam as casas, e só com a casa e com a porta de Ló, que era o que buscavam, nenhum deles atinava. Buscavam na cidade a rua de Ló: viam a rua, e não atinavam com a rua; buscavam na rua a casa de Ló: viam a casa e não atinavam, com a casa; buscavam na casa a porta de Ló: viam a porta e não atinavam com a porta: Ita ut ostium invenire non possent, diz o texto.9 E para que cesse a admiração de um caso tão prodigioso, isto que fizeram naqueles olhos os anjos bons, fazem nos nossos os anjos maus. Estamos na quaresma, tempo de rigor e penitência, e sendo que a penitência é a rua estreita por onde se vai para o céu: Arcta via est, quae ducit ad vitam,10 vemos a rua, e não atinamos com a rua. Entramos e freqüentamos agora mais as igrejas, pomos os pés por cima dessas sepulturas, e sendo que a sepultura é a casa onde havemos de morar para sempre: Sepulchra eorum domus illorum in aeternum,11 vemos a casa, e não atinamos com a casa. Sobem os pregadores ao púlpito, põem-nos diante dos olhos tantas vezes a lei de Deus esquecida e desprezada, e sendo que a lei de Deus é a porta por onde só se pode entrar à bemaventurança: Haec porta Domimi, justi intrabunt in eam, vemos a porta; e não atinamos com a porta: Ita ut ostium invenire non possent.

Paremos a esta porta ainda das telhas abaixo. Andam os homens cruzando as cortes, revolvendo os reinos, dando voltas ao mundo, cada um em demanda das suas pretensões, cada um para se introduzir ao fim dos seus desejos, todos aos encontrões uns sobre os outros, os olhos abertos, a porta à vista, e ninguém atina com a porta. Andais buscando a honra com olhos de lince, e sendo que para a verdadeira honra não há mais que uma porta, que é a virtude, ninguém atina com a porta. Andais-vos desvelando pela riqueza, com mais olhos que um Argos, e sendo que a porta certa da riqueza não é acrescentar fazenda, senão diminuir cobiça, ninguém atina com a porta. Andais-vos matando por achar a boa vida, e sendo que a porta direita por onde se entra à boa vida, é fazer boa vida, ninguém atina com a porta. Andais-vos cansando por achar o descanso, e sendo que não há nem pode haver outra porta para o verdadeiro e seguro descanso, senão acomodar com o estado presente, e conformar com o que Deus é servido, não há quem atine com a porta. Há tal desatino! Há tal cegueira! Mas ninguém vê o mesmo que está vendo, porque todos, desde o maior ao menor, somos como aqueles cegos: Percusserunt eos caecitate, a maximo usque ad minorem.

Sobre estes dois exemplos tão notáveis, entre agora a razão por que estais esperando. Que seja possível ver e não ver juntamente, já o tendes visto. Direis que sim, mas por milagre. Eu digo que também sem milagre, e muito fácil e naturalmente.13 Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão por que, naturalmente e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas porque as vemos, e não vemos essas mesmas coisas porque as vemos divertidos.

(continua...)

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