Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão do Santíssimo Sacramento

Por Padre Antônio Vieira (1674)

Esta é senhores a tentação com que Deus nos tenta, digna da generosidade e grandeza, e do coração amoroso de tão soberano tentador: Tentat vos Dominus Deus vester. Agora toca a nós, ou resistir e vencer a tentação ou cair; ou ser da multidão vulgar dos que por suma fraqueza e indignidade seguem o mundo, ou ser do mundo generoso e verdadeiramente cristão dos que, deixando ao mundo as suas loucuras, seguem e assistem a Cristo e professam publicamente nestes dias ser do partido dos que o amam: Ut palam fiat utrum diligatis eum, an non. Toda a tentação e toda a vitória está entre um sim e um não. Ou ver ou não ver; ou amar ou não amar. Até agora Utrum diligatis eum, an non, é problema. Vós o haveis de resolver, e os vossos olhos. De boa vontade o disputara eu largamente por uma e outra parte. Mas porque a brevidade do tempo mo não permite, eu vo-lo proporei já disputado e resoluto na Escritura, e prodigiosamente representado. Tornemos às ribeiras do Jordão.

Entrou no Jordão a Arca do Testamento, e subitamente as águas do rio se dividiram em duas partes ou em duas parcialidades. A parte superior, como estática e atônita à presença da Arca, tornou atrás e parou, e assim esteve imóvel. A parte inferior, deixando-se levar da inclinação natural e ímpeto da corrente, não parou, e correu ao mar. Esta é a famosa história que todos os anos nestes dias se representa em Roma. A Arca do Testamento, na qual se encerrava toda a grandeza e majestade de Deus, é o digníssimo Sacramento; o Jordão, que se dividiu, não é o Tibre, mas a cidade do Tibre, que também tem suas correntes e suas divisões. A parte superior, que reverente parou à presença da Arca, são aqueles que assistem e acompanham a este Senhor. A parte inferior, que se retirou e correu ao mar, são os que o deixam e desacompanham, e se vão com a corrente onde os chama o mundo.

À vista desta diferença tão notável, fala Davi com o rio, e diz assim: Quid est tibi mare, quod fugisti, et tu Jordane, quia conversus es retratsum? Jordão parado, Jordão fugitivo, que divisão é esta, e que resolução tão diversa? Tu que paras, por que paras? E tu que foges, de quem foges? Se a causa é a mesma, o rio e mesmo, e a natureza de uma e de outra parte a mesma, por que são os movimentos tão contrários? Responde Davi pela parte do Jordão superior e parado, e diz que parou cortês e obsequioso porque reconheceu e reverenciou na Arca a presença do Deus de Jacó:

Afacie Domini, afacie Dei Jacob. Chamava-se a Arca face de Deus pela particular assistência com que Deus invisivelmente residia nela. E daqui se segue também que todo o verso de Davi se há de entender, como nós o entendemos, da passagem do Jordão, porque na passagem do Mar Vermelho ainda não havia arca. Mas se bastava dizer que parou o Jordão: A facie Domini, por que acrescentou nomeadamente o profeta que esse Deus era Deus de Jacó: A facie Dei Jacob? Seria porventura para diferenciar o Deus verdadeiro, qual era o de Jacó, dos deuses falsos e fabulosos, que em diversas figuras adoravam naquele tempo os gentios? Verdadeiramente, senhores, que quem não pára aqui a reverenciar e assistir àquela divina Arca, ou não crê que está ali o verdadeiro Deus, ou tem outros deuses falsos e torpes, a quem mais ama e adora. Mas não é este só o mistério, nem foi esta só a fineza do Jordão. Nota neste passo a glosa que não disse o profeta: A facie Dei Israel, senão: A facie Dei Jacob. Este patriarca tinha dois nomes: o de Jacó, que lhe puseram os homens, e o de Israel, que lhe deu Deus. Pois por que se não chama Deus neste caso Deus de Israel, senão Deus de Jacó? Com grande mistério. Jacó quer dizer:

Luctator, o lutador; Israel quer dizer: Videns Deum: o que vê a Deus. E como Deus estava invisivelmente na Arca, e o Jordão parou a Deus invisível, por isso Deus se não chama aqui Deus do que vê a Deus: Deus Israel, porque foi Deus reverenciado, e não visto; chama-se, porém, com segundo mistério e com maior energia: Deus Jacob: Deus lutador, porque o Jordão, resistindo ao peso das águas e refreando o ímpeto da corrente, lutou fortemente contra a inclinação precipitosa da própria natureza, e a venceu gloriosamente. De maneira que se ajustaram neste milagre do Jordão as duas circunstâncias que necessariamente concorrem nos que assistem a Cristo sacramentado nestes dias. A primeira, lutar como Jacó, e vencer o ímpeto da inclinação natural que os leva a seguir a corrente. A segunda, parar e assistir aqui, imovelmente, a Deus, mas não a Deus visto, como Deus de Israel, senão a Deus invisível, como Deus de Jacó.



(continua...)

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →