Por Padre Antônio Vieira (1655)
Confessionário geral de um ministro cristão: Quis? Quem sou eu? O escrúpulo dos cargos. Quantos ofícios tenho? Assim como o sol, o homem não pode presidir a mais de um hemisfério. A Adão foram dados três ofícios, dos quais não soube dar conta. Escrúpulos da alma santa dos Cânticos e de Moisés, grão-ministro de Deus e de sua república.
Suposto pois que há confissões que merecem ser confessadas, bem será que desçamos com a nossa admiração a fazer um exame particular delas, para que cada um conheça melhor os defeitos das suas. E para que o exame se acomode ao auditório, não será das consciências de todos os estados, senão só dos que têm o estado à sua conta. Será um confessionário geral de um ministro cristão. Os teólogos morais reduzem ordinariamente este modo de exame a sete títulos: Quis? Quid? Ubi? Quibus auxilus? Cur? Quomodo? Quando?7 A mesma ordem seguiremos, eu para maior clareza do discurso, vós para maior firmeza de memória. Deus nos ajude.
Quis? Quem sou eu?
Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro, ou seja Arão secular, ou seja
Arão eclesiástico. Eu sou um desembargador da casa da suplicação, dos agravos,
do paço. Sou um procurador da coroa. Sou um chanceler-mor. Sou um regedor da
justiça. Sou um conselheiro de Estado, de guerra, do ultramar, dos três
estados. Sou um vedor da fazenda. Sou um presidente da câmara, do paço, da mesa
da consciência. Sou um secretário de estado, das mercês, do expediente. Sou um
inquisidor. Sou um deputado. Sou um bispo. Sou um governador de um bispado,
etc. Bem está: já temos o ofício, mas o meu escrúpulo, ou a minha admiração,
não está no ofício, senão no um. Tendes um só destes ofícios, ou tendes muitos?
Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm
quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios. Este ministro
universal não pergunto como vive, nem quando vive. Não pergunto como acode a
suas obrigações, nem quando acode a elas? Só pergunto como se confessa? Quando
Deus deu forma ao governo do mundo, pôs no céu aqueles dois grandes planetas, o
sol e a lua, e deu a cada um deles uma presidência: ao sol, a presidência do
dia: Luminare niajus, ut praeesset diei; e à lua a presidência da noite:
Luminare minus, utpraeesset nocti.8 E por que fez Deus esta repartição?
Porventura por que se não queixasse a lua e as estrelas? Não, porque com o sol
ninguém tinha competência, nem podia ter justa queixa. Pois, se o sol tão
conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu, por que não proveu Deus nele
ambas as presidências? Por que lhe não deu ambos os ofícios? Porque ninguém
pode fazer bem dois ofícios, ainda que seja o mesmo sol. O mesmo sol, quando
alumia um hemisfério, deixa o outro às escuras. E que haja de haver homem com
dez hemisférios, e que cuide, ou se cuide, que em todos pode alumiar? Não vos
admiro a capacidade do talento; a da consciência sim.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.