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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

A mais encarecida, a mais empenhada e a mais importuna e impaciente petição que fez mulher neste mundo, foi a de Raquel a seu marido Jacó: Da mihi liberos, alioquim moriar: Jacó, dai-me filhos, senão hei de morrer (Gên. 30,1). Respondeu-lhe Jacó que os filhos só Deus os dá, e só ele os pode dar. E com ser esta razão tão certa e tão experimentada, não se conformava com ela Raquel. Instava: Da mihi liberos. Dizia-lhe que advertisse como estava na primavera de seus anos, e que ainda lhe restavam muitos em que podia ter naturalmente o que tanto desejava. Mas esta mesma esperança a inquietava mais: Da mihi liberos. Animava-a com o exemplo de sua avó Sara, que depois de tão comprida esterilidade houvera a Isac, seu pai. Mas Raquel sempre mais impaciente: Da mihi liberos. Ajuntava Jacó a estas razões as da lisonja, mais poderosa muitas vezes com a fraqueza e presunção daquele sexo; dizia-lhe que olhasse para si, e se consolasse com a rosa, a qual sendo a beleza dos prados e a rainha das flores, é flor que não dá fruto. Mas nem a lisonja, nem a razão, nem o exemplo, nem a esperança bastava a lhe moderar as ânsias, nem as vozes: Da mihi liberos! Da mihi liberos! Esta era a petição, este o aperto, estas as instâncias. Mas qual foi o despacho e o sucesso? Caso verdadeiramente admirável! O despacho foi assim como Raquel pedia, e o sucesso em tudo contrário, ao que pedia. O que pedia Raquel não só era filho, senão filhos: Da mihi liberos; e assim lho concedeu Deus, porque a fez mãe de José e de Benjamin. Mas o sucesso foi em tudo contrário ao que pedia, porque parindo felizmente o primeiro filho, morreu de parto, e no mesmo parto do segundo. Lembrai-vos agora dos termos com que Raquel pedia os filhos: Da mihi liberos, alioquim moriar: Dai-me filhos, dizia, senão hei de morrer. E quando cuidava que havia de morrer se não tivesse filhos, porque teve filhos, e no mesmo ponto em que os teve, morreu. Cuidava que pedia a vida, e pedia a morte; cuidava que pedia a alegria sua e de sua casa, e pedia a tristeza, o luto, a orfandade dela, e os que lhe haviam de trocar a mesma casa em sepultura. Tão errados são os pensamentos e desejos humanos, e tão certo é, que no que pedimos com maiores ânsias não sabemos o que pedimos: Nescitis quid petatis!

Confirmado o desengano da mãe dos Zebedeus com o exemplo desta mãe, confirmemos o de seus dois filhos com o exemplo de outros dois, posto que filhos de diferentes pais. Sabida é a história de Sansão, e sabida a do pródigo, ambos famosos por seus excessos. Deixados pois os princípios e progressos de uma e outra tragédia, ponhamo-nos ao fim de ambas, e vejamos o estado de extrema miséria a que os passos de cada um os levaram por tão diversos caminhos. Vedes aquele homem robusto e agigantado que com aspecto ferozmente triste, tosquiados os cabelos, cavados os olhos e correndo sangue, atado dentro em um cárcere a duas fortes cadeias, anda morrendo em uma atafona? Pois aquele é Sansão. Vedes aquele mancebo macilento e pensativo que roto e quase despido, com uma corneta pendente do ombro, arrimado sobre um cajado, está guardando um rebanho vil do gado mais asqueroso? Pois aquele é o pródigo. Quem haverá que se não admire de uma tal volta de fortuna em dois sujeitos tão notáveis, um tão valente, outro tão altivo! É possível que nisto pararam as façanhas e vitórias de Sansão? É possível que nisto pararam as riquezas e bizarrias do pródigo? Nisto pararam, ou para melhor dizer, não pararam só nisto, porque o pródigo, perecendo à fome no meio da montanha, não tinha licença para se sustentar das bolotas com que apascentava o seu gado, e Sansão, tirado em público para ludibrio do povo, foi tratado com tais escárnios e indecências, que de corrido e afrontado, com suas próprias mãos se tirou a vida. Mas qual seria a cousa destes sucessos, e de suas mudanças tão estranhas? Agora não vos peço admiração, senão pasmo. Ambas estas mudanças de fortuna não tiveram outra cousa que o bom despacho de suas petições, em que Sansão e o pródigo se empenharam. Pediu Sansão a seus pais que lhe dessem por mulher uma filistéia: Quam quaeso ut accipiatis mihi uxorem11. Concederam-lhe os pais o que pedia, e esta filistéia foi a cousa das guerras que Sansão teve com os filisteus, e dos enganos e traições de Dalila, e da sua prisão, e do seu cativeiro, e da sua cegueira, e das suas afrontas, e do fim lastimoso e trágico de seu valor. Da mesma maneira pediu o pródigo a seu pai lhe desse em vida a herança que lhe havia de caber por sua morte: Da mihi partionem substantiae quae me contingit (Lc. 15, 12). Concedeu-lhe o pai o que pedia, e esta herança, consumida em larguezas e vícios da mocidade, foi cousa da sua pobreza, da sua vileza, da sua miséria, da sua fome, da sua servidão, da sua desonra, que só tiveram de desconto o pesar e arrependimento.

(continua...)

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