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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Citarei também Camilo de Noronha, que, já neste século foi notável como toureiro e varredor de feiras. A sua destreza no jogo de pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e destroçava a multidão, atirando homens por terra como uma criança que derrota um regimento de soldadinhos de chumbo. Contam-se dele deliciosas anedotas. Na Covilhã, por exemplo, tinha um cavalo adestrado que escoiceava, mal o alegre Camilo de Noronha assobiava. Costumava aproximá-lo de fidalgos e senhoras (mas sobretudo de plebeus)... Um assobio rápido, um coice imprevisto, e o indivíduo ou a dama eram levados em braços, no meio da hilaridade que entre os seus amigos causavam sempre tais façanhas. Sem inteiramente aprovar estas distracções violentas, não se pode, todavia, deixar de reconhecer que há em tais actos uma plenitude de seiva, de vida animal e de força que agrada em jovens fidalgos.

Estas migalhas de História, apanhadas ao acaso, pintam a traços largos a feição desta família ilustre. Os Noronhas usam sobre o campo de prata três castelos de ouro e este mote: In Chistro spes meu (em Cristo a minha esperança), sublime divisa, a melhor, a mais nobre. E foi esta a divisa do Conde d'Abranhos, até que, por decreto do 1º de Janeiro de 1860, S. M. lhe concedeu o título de Conde. Tomou então este outro mote: Ex corde pro rege (do coração pelo Rei!) Estas palavras, partindo de um homem que não era um cortesão e até então não mostrara especial dedicação pelo Monarca, parecem-me exemplo alto e resplandecente de reconhecimento, neste século de ingratidões endurecidas e lealdades frouxas.

Foi sempre para mim um motivo de assombro que durante a sua infância, Alípio Abranhos não tivesse – como Napoleão, Chateaubriand ou Lord Byron – revelado a sua futura elevação de espírito e de carácter por alguma dessas estranhas precocidades que são como as faíscas inesperadas que saem de um fogo ainda incubado. Os seus primeiros anos são sem relevo e inteiramente incaracterísticos. Ele mesmo o reconhecia com modéstia, quando dizia, sorrindo: «–Como toda a gente, apanhei ninhos e fiz papagaios de papel...

É certo que o meio em que se passou a sua mocidade não oferecia ocasião a que se revelassem os seus gostos inatos e se acentuassem as suas tendências. Estou bem certo que se tivesse sido educado numa dessas velhas casas morgadas, onde gerações letradas formavam ricas e sábias bibliotecas, veríamos o pequeno Alípio deixar os ninhos e os papagaios, para se ir esconder nalgum recanto da silenciosa livraria, e ali, folhear os antigos romances de cavalaria, ou, o que era mais natural à feição nativa do seu espírito, ler, compreendendo-os mal, os filósofos do passado. E porém sabido que seu pai – e não creio ofender a sua memória revelando-o – tinha um pequeno e honesto estabelecimento de alfaiate, e as únicas publicações que decerto ali se veriam entre os cortes de pano, seriam os volumes do antigo Espelho da Moda. Eu creio, porém, que esta falta de vida intelectual foi singularmente favorável ao seu desenvolvimento físico. Não tendo livros que o prendessem em casa, Alípio passava os seus dias pelas hortas e pelos quintais, crescendo em plena natureza, crestado pelo Sol, batido dos largos ares, e, como dizia um poeta antigo, mamando à farta nos peitos de Cíbele.

Foi esta forte educação rural que lhe deu aquelas cores sadias, aquele porte erecto, que destacavam com um tão edificante relevo entre os bustos anémicos e as faces amareladas da raça lisboeta. E a esta primitiva comunicação com a Natureza que ele deveu o seu espírito recto e tão bem ponderado, amando em tudo a ordem, o equilíbrio, a formosa disposição das hierarquias. Mens sana in corpore sano: que eu por mim tenho que as ideias falsas, anárquicas, são o resultado das organizações debilitadas. As cidades modernas, com as suas ruas mal arejadas, os seus quintos andares abafados, o seu rumor trovejante de fábricas e de veículos, a luz crua do gás, a alimentação insa-lubre, formam estas gerações pálidas, nervosas, agitadas por um desejo histérico de novidade, de artifício, de desordem e de violência. E esta a origem do espírito revolucionário. O homem que, pelo contrário, habita os campos, que respira o ar dos largos prados, repousa a vista na vasta linha do horizonte, na serenidade silenciosa das aldeias, ganha, num corpo forte, um espírito calmo: odeia a agitação; está naturalmente preparado para respeitar a Autoridade, os Princípios sólidos, a Ordem, toda a ordenação harmónica e bela do Estado.

Tenho, porém, a certeza de que o Conde, com a sua grande modéstia, não exprimia inteiramente a verdade quando atribuía aos ninhos e aos papagaios o privilégio de lhe absorverem todo o interesse! Não! Já então naquele espírito de criança deviam passar ideias, ainda indefinidas mas fortemente marcadas de originalidade: soltando aos ares os seus papagaios, é de crer que pensasse na eterna aspiração da alma para os cimos azulados da graça; e, ao contemplar ovos de pintassilgo, fofamente dispostos no fundo de um ninho muito quente e muito tenro, decerto lhe devia passar na alma a ideia eterna.9 da instituição da família. Um dia mesmo, ao contar-lhe estas suposições que me tinham atravessado o espírito:

– Qual história! – respondeu com bondade o Conde. – Isso são coisas da sua imaginação de poeta. Eu era um cavalão, aqui onde me vê!... Não nego, porém, que desde novo, fui inclinadote a agitar questões sociais!...

E quando eu vejo, hoje, moços saídos das escolas, sem experiência da vida, do Estado, da Administração, quererem reformar a Sociedade, como me parece admirável a modéstia deste homem notável, que classificava assim o seu grande génio filosófico: – inclinadote a agitar questões sociais!...

(continua...)

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