Por Eça de Queirós (1870)
Conquanto estas coisas fossem ditas por F... com um ar de bon dade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvi-lo. Movia convulsivamente umaperna, firmando o cotovelo num joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de per to o meu amigo. Depois, reclinando-se para trás e como se mudasse de resolução:- No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez que eu fizesse e dissesse o mesmo no seu lugar.
E, tendo meditado um momento, continuou:- Que diriam, porém, os senhores se eu lhes provasse que es ta máscara em que querem ver apenas um sintoma burlesco é em vez disso a confirmação da seriedade do caso que nostrouxe aqui F... Queiram imaginar por um momento um desses romances como há muitos: uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja há um ano. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está grávida. Que deliberação há-de tomar?Houve um silêncio.
Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude daqueleproblema e respondi: — Enviar ao marido uma escritura de separação em regra. De pois, se ética, ir com o amante para a América ou para a Suíça; se é pobre, comprar uma máquina de costura etrabalhar para fora numa água-furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa nessas condições, num cottage à beira do lago de Genebraou num quarto de oito tostões ao mês na Rua dos Vinagres. Morre-se igualmente, de tísica ou de tédio, nos esfalfamento do trabalho ou no en4oo do idílio.
— E o filho?
— O filho, desde que está fora da família e fora da lei, é um des graçado cujo infortúnio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pai clandestino. Se os pais fazem como a legislação, e mandam buscar gente à estra da de Sintrapara perguntar o que se há-de fazer, o melhor para o filho é deitá-lo à roda.
— O doutor discorre muito bem como filósofo distinto. Como puro médico, esquecelhe talvez que na conjuntura de que se tra ta, antes de deitar o filho à roda há uma pequenaformalidade a cumprir, que é deitá-lo ao mundo.
— Isso é com os especialistas. Creio que não é nessa qualida de que estou aqui.- Engana-se. É precisamente como médico, é nessa qualida de que aqui está e é por esse título que viemos buscá-lo de surpre sa à estrada de Sintra e o levamos a ocultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa dele.- Mas eu não faço clínica.
— É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: nãoprejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir nesta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma tese de cirurgia que despertou a aten ção e mereceu o elogio da Faculdade. Queira fazer de conta que vai assistir a um parto.O meu amigo F... pôsse a rir e observou:
— Mas eu que não tenho o curso médico nem tese alguma de que me acuse na minhavida, não quererão dizer-me o que vou fazer?- Quer saber o motivo por que se encontra aqui?... Eu lho digo.
Neste momento, porém, a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros,sobressaltados, ergueram-se.
III
Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir sucessivamente as duaslanternas e raspar um fósforo na roda. Senti depois estalar a mola que comprime a portinha que se fecha depois de acender as velas, e rangerem nos anéis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando.Não compreendi logo a razão por que nos tivéssemos detido pa ra semelhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.Isto, porém, explica-se por um requinte de precaução. A pes soa que nos servia de cocheiro não quereria parar em lugar onde houvesse gente. Se tivéssemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a acender-se e que nós veríamos através da cortina oudas fendas dos estores, poderiam dar-nos alguma ideia do sítio em que nos achássemos. Por esta forma esse meio de investigação desaparecia. Ao passarmos entre prédios ou murosmais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão dessa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessávamos uma aldeia ou uma rua ilu minada.Logo que a carruagem começou a rodar depois de acesas as lan ternas, aquele dos nossos companheiros que Prometera explicar a F... a razão por que ele nos acompanhava,prosseguiu:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.