Por Eça de Queirós (1925)
— Abre, ou arrombo – gritou ele, com uma punhada à porta, como se fosse já sobre o corpo dela que batesse, todo com idéias de sangue e de morte.
Então uma voz aflita disse de dentro , num grito de súplica:
— Mas não me faças mal.
— Juro-te que te não faço mal... Abre, abre!
A chave rangeu. Ele precipitou-se enquanto Ludovina, no seu grande penteador branco, se refugiava pôr trás da cama, apertando as mãos, com os olhos arregalados de pavor, e cheios de lágrimas.
E então, diante daquela mulher que chorava, ele ficou com a garganta estrangulada, sem obter uma palavra, dardejando-lhe um olhar de louco, e quase chorando também.
Então ela deu dois passos lentos para ele, com os braços abertos, tremendolhe a voz, tremendo ela toda, gritou por entre as lágrimas :
— Oh Godofredo, pela tua saúde, perdoa, eu não tinha feito mal nenhum, e era só a primeira vez...
E ele com a garganta estrangulada articulava apenas com os dentes cerrados:
— A primeira vez, a primeira vez...
A sua cólera subia, fez explosão, num berro:
— E que fosse a primeira, que tem fosse a primeira? E então com quem, infame! E com quem! O que eu devia era matar-te. Vai, vai-te embora, sai daqui, deixa-me, criatura... Vai-te, vai-te.
Ela saiu, num choro desesperado. Então voltando-se, ele viu à porta do corredor a cozinheira, que olhava, curiosa, com o olho aceso, e mais na sombra do corredor, inquieta, e encolhida, mas espreitando também, a Margarida.
— Que faz vossemecê aqui – gritou ele. – Já para a cozinha! Se há aqui um pio vai tudo para a rua.
E atirou com a porta, ficou passeando furiosamente no quarto, onde o grande leito, com as duas travesseirinhas unidas, ostentava a sua brancura. E através do sangue que lhe fervia na cabeça, as suas idéias fixavam-se, decidia-se a bater-se com o Machado, num duelo de morte; e a ela, mandá-la para casa do pai. Pensou também num convento. Mas pareceu-lhe mais digno ir simplesmente restituí-la ao pai. E apenas mediu, pesou, fixou estas duas resoluções, a sua grande cólera calmou-se.
Agora era uma tristeza dura, negra, onde se misturava a necessidade imperativa, fria, aguda de se vingar... Agora a casa parecia de novo adormecida ao sol, conservando apenas como um surdo calor da cólera que ali passara.
Ele então procurou compor o rosto, mesmo diante do espelho arranjou a gravata; e empurrou a porta que dava para a sala de jantar. Ela estava lá sentada numa cadeira, encostada à parede, com o lenço na mão, chorando baixo, e assoando-se pôr entre lágrimas. Os seus cabelos que ainda estavam as lágrimas. Os seus belos cabelos que ainda estavam metidos numa rede vermelha, e o chambre que se desapertara, deixava ver um bocadinho de renda de camisa, uma vaga brancura de seio. Ele desviou os olhos, nem a quis ver chorar. Foi voltado para a janela, seco e duro, que disse:
— Arranje as suas coisas, para ir para casa de seu pai.
Com os olhos voltados para a vidraça, sentiu que pôr trás o choro brando tinha parado: mas ela não respondeu. Ele esperou ainda, uma súplica, um grito de amizade , uma palavra de arrependimento. Ouvia-a apenas assoar-se. Então tornouse cruel:
— Em minha casa – continuou, sempre voltado para a janela, com uma voz espectral da sua boca de mármore, e que o devia queimar – não quero prostitutas.
Pode levar tudo... Tudo o que é seu leve. Mas rua!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.