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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

Todos se acercaram do leito e ele, estranhando, talvez, o rosário de corações que assim o cingia, relanceava em volta lento, interrogativo olhar de espanto.

Por vezes crispava-se-lhe, de leve, o rosto como se frisa com a aragem a superfície da água; as mãos moviam-se-lhe inquietas, contraindo, distendendo os dedos; o peito arfava-lhe opresso como se sustentasse um peso esmagador.

Silêncio trágico continha a todos, suspensos.

Que haveria? Por que tão atento o fitava o médico tomando-lhe obstinadamente o pulso?

Eu sentia um perigo. Parecia-me vê-lo à beira de um abismo que ele tivesse de atravessar sobre estreita ponte frágil.

De repente, agitando-se, abrindo um olhar imenso, perguntou em voz surda:

- Que horas são?

Alguém respondeu baixinho, entanto a resposta soou forte no silêncio, como pancada em lâmina metálica: “Sete!”

Ia-se a tarde em desmaio melancólico, já agasalhada em sombras.

Por que teria ele feito tal pergunta? Que teria visto? Os prenúncios, talvez, da noite primitiva, a noite que se fecha para o sempre, noite vazia, silente, sem astros, sepultura da luz.

O coração retransiu-se-me apertando, o fôlego sustou-se-me na garganta e meus olhos, como atraídos, voltaram-se para o oratório buscando a cruz de bronze, relíquia de Jerusalém, sacrossanto sinete que tem selado para a Eternidade todos os mortos da minha família. E as lágrimas borbulharam-me no coração, senti-as subirem-me aos olhos, a jorros violentos, e tive forças para contê-las.

Súbito o silêncio estalou em pranto como um vaso hermeticamente fechado que se fizesse pedaços derramando todo o líquido contido.

Tombei de joelhos junto do leito agarrando-me desesperadamente ao corpo que se imobilizava. Tudo cessara e o olhar, que ele ainda mantinha fito em nós, extático, não tinha luz: era como o morrão que fica ardendo nos círios e que, pouco a pouco, envolto em fumo, vai-se extinguindo, até de todo se apagar.

Alguém chamou por ele, em pranto.

Ai! de nós...

Às pedras deu-lhes Deus o eco para responderem a quem lhes brada e ao que morre tudo se vai, não fica, sequer, um pouco de som para a suprema palavra de um adeus. É um caixão que se fecha. Nada mais.

CONSUMMATUM...

Onde estaria eu quando o desceram para a minha sala de trabalho?

Onde estaria eu que não dei pelo trânsito cruciante?

Quando entrei no quarto e vi a cama deserta foi tal o alvoroço no meu coração que estaquei suspenso, entendo um grito. Seria possível!? Olhei em volta... Mas toda aquela desordem velas ainda acesas, o silêncio, o lúgubre vazio...

Se o corpo sai com vida deixa um misterioso sinal de si: o ausente afigura-se-nos presente; o morto, não!

A morte arrasta tudo consigo e ali nada mais havia, mais nada senão um sulco revolto como o que fica nas águas à passagem de um barco - fundo, mas de breve duração; agitado, mas só em efêmeras espumas.

Onde estaria eu quando o desceram?

E foi diante daquele vazio que senti toda a grandeza do meu amor. É pelo diâmetro e profundidade da cova que se pode avaliar a extensão das raízes da árvore derrubada. Onde estaria eu quando o desceram? Afastaram-me, decerto, para transportá-lo. Foi melhor assim.

Não há hora mais triste que a do ocaso, hora do descer da luz. A noite é o irremediável, com a consolação das estrelas, que são lágrimas.

Fizeram bem em poupar-me à cena triste do descimento do corpo frio. Foi como se me adormecessem para uma operação dolorosa. Quando dei acordo de mim tudo estava consumado.

A CHAVE

Fechado um cofre e atirada a chave em pleno oceano, nem por isso deverá o dono perder a esperança de poder, um dia, reavê-lo, abri-lo e rever o seu tesouro intacto.

Não tornou do pélago o anel lançado pelo tirano às vagas, em hóstia à Fortuna, que o recusou, devolvendo-o nas entranhas de um peixe?

Mergulhadores, assim como pescam pérolas, podem rebuscar, nas areias e covas submarinas, a jóia imersa trazendo-a à tona e restituindo-a ao que a perdeu ou, em instantes de desvario, atirou ao mar.

Todos os abismos têm limite - de um só, o túmulo, ninguém mediu ainda a profundidade. Quantos lá têm amores, desfeitos em saudades, tentam, em vão, alcançá-los e valem-se dos meios, todos frustrâneos, ilusões que, em vez de consolarem, mais aumentam o desespero.

O que se acredita ver na placidez da Morte e a imagem do que existe no coração.

Quantos infelizes, deixando a realidade triste pela miragem falaz, ficam na vida sem o que tinham para guiá-los, que era a Luz da razão, apagada no mergulho em que se precipitaram! A pequenina chave que fechou o teu caixão, meu filho, nunca mais terá serventia. Fez o que lhe cumpria, nada mais tem a fazer. E eu, entretanto, guardo-a como a mais preciosa das minhas relíquias. Para que? De que me serve se, com ela, não abro mais do que as fontes do coração dando livre curso às lágrimas saudosas?

(continua...)

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