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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

- Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só depois de rezar conseguia adormecer.

- Porque a fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que não crê é como o cego que anda tateando, sempre arriscado a perigos bastando resvalar num talude para precipitar-se no abismo. A fé é como uma lâmpada dos templos: sempre acesa e fulgurando.

O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O horizonte do crente é Deus. - Por que bate com mais vigor o coração à noite?

- As águas murmuram mais alto no silêncio? Não, a voz é a mesma, a calma é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas à sombra da vinha ouves balar o rebanho? Não, entretanto, à noite, soergues-te do leito à voz lamentosa duma ovelha perdida. O coração parece pulsar com mais ímpeto nas horas de recolhimento.

Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estilicídio é uma gota que faz ruído. É essa uma das vantagens da noite – estabelecer o silêncio, a quietude na alma para que a consciência faça o seu ato de contrição. - E as estrelas? Quem as acende no céu? - Aquele mesmo que abre as flores na terra. - Ninguém o vê.

- E o pensamento, quem o vê? Enunciado é um relâmpago, realizado é um esplendor; a sua essência é um gênio, que gera a ordem. O mundo é a realização do pensamento de Deus. As obras efêmeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano. O homem constrói, é o artista. Deus creia, é o Verbo. - E eu? - Tu és Maria, disse o patriarca, afagando-a paternalmente. Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo os dizeres do ancião:

... cheia de graça, o Senhor é contigo, Bendita és tu entre as mulheres.

Ela deteve-se assustada e interrogou o esposo, trêmula:

- Que dizes, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu: - Digo que és uma criatura de Deus, como a flor, como a estrela. Os chacais latiam no deserto ao doce clarão da lua.

A TENTAÇÃO

Numerosa estropeada de inúmeros corcéis atroou o silêncio; tubas clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, que o luar vestia d’alvo, viram altos pilonos de basalto, sarapintados de hieróglifos, ante os quais esfinges monstruosas, deitadas sobre estelas negras, leivadas de sanguíneo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis, cravaram no céu os olhos misteriosos.

Mal chegaram à entrada portentosa logo uma luzente guarda de catafratos , com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverização de aromas.

Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirífica, toda em mármores e pórfidos, com enormes templos, palácios que eram cidadelas, jardins de redolentes aléias, rios beirados de árvores, com as rampas em alcatifa de flores, rolando alisadas águas sobre as quais rebrilhava, em tremulina, o luar.

Barcos de proas curtas, transbordando brocados, cruzavam-se com músicos sob dóceis de seda.

Nos bosques que os cisnes percorriam, alvos como vivos mármores, mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balançavam-se em redouças.

Os zimbórios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as escadarias largas, de zebrados degraus de cipolino, subindo a pátios de mosaico, esplendiam.

Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa variedade de trajos multicores.

Passavam palanques sob flabelos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas à cinta, emplumados turbantes à cabeça.

Plaustros rodavam com crepitações levantando uma névoa loura.

Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de ônix canelado, mole serpente de escamas de ouro, vibrando a língua bífida, enroscava, em lentas espiras, ficando, às vezes, pendente, a oscilar como uma grossa liana.

José olhava pasmado e Maria encolhia-se tímida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente.

Não era a triste Sichem nem a sombria Jericó. Que cidade seria aquela tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?

Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo apareceu no peristilo e vagaroso, solene, pôs-se a descer a fulgida escaleira.



(continua...)

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