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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Falam um patois detestável; ninguém os entende com facilidade. Imagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: — Came hear! carne hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O mísero julga-se por um momento transportado, como por encanto, às costas da África, fecha ouvidos à grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remédio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, até que, depois de uma luta incrível, esguedelhado, ofegante, pálido, embarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!

E ainda por cima vocifera a legião faminta dos negros!

Não exagero. Parece realmente um país semibárbaro aquele, e ai! de nós se não fossem os policemen, ativos e enérgicos guardas da vigilância pública, que a um simples franzir de sobrolhos fazem desaparecer a medonha horda de capadócios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demônios.

É espantosa a ambição do povo por dinheiro.

Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.

Basta dizer que ainda não tínhamos fundeado e já grande número de pequenas embarcações a vela e a remos — fly hoats — aproximavam-se do navio, cortando-lhe a proa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam: — I am pilot! I am pilot!

Embalde procurávamos persuadir àqueles esfaimados de dinheiro que não precisávamos de prático, pois a baía de Bridgetown é bastante espaçosa e oferece entrada franca.

Dávamos com o lenço, mandando-os embora — que não! mas os gritos repetiam-se: — I am pilot! I am pilot!

Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio estrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.

Formidáveis importunos os tais negros de Barbados!

A edificação de Bridgetown, puramente inglesa, é curiosa, pitoresca mesmo, se bem que uniforme.

As casas, baixas quase todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua arquitetura, são confortáveis e convidam ao farniente.

As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitáveis, em conseqüência do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.

No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a St. Leonard's School e uma igreja-cemitério.

A estátua de Nelson, o herói de Trafalgar, ergue-se, em bronze maciço, numa das melhores praças do lugar — Nelson's Square, se me não engano.

Os poucos hotéis que existem na ilha são vastos e oferecem o necessário conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnífico vinho, deliciosos sorvetes — ice-cream — e, finalmente, boas camas e muito asseio.

O brasileiro que viaja, com raras exceções, tem necessidade imprescindível de duas coisas que ele julga essenciais ao seu bem-estar: café e cigarros.

Spleen e charutos — são coisas inseparáveis de um inglês da Inglaterra; café e cigarros — eis o que um brasileiro não dispensa.

Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestável composto de muito pó e pouca água, que os naturais misturam à guisa de chocolate, mas de um sabor desagradável, repugnante.

Duas linhas de bondes percorrem a capital dum extremo a outro.

A ilha é circundada por uma via férrea.

De resto, é admirável senão assombroso o progresso dessa colônia, relativamente pequena e tão longe da metrópole.

E, note-se, de vez em quando atravessam aquelas regiões terríveis ciclones produzindo estragos incalculáveis em toda a extensão da ilha. Inúmeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas à costa por esses formidáveis meteoros. O último caiu em 1851 e figura nos anais da navegação como um dos grandes desastres marítimos do Atlântico.

CAPÍTULO III

Na manhã do dia 13 suspendemos âncora em direção à ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na baía de Port-Royal.

Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvíssima, as altas montanhas que orlam majestosamente a antiga colônia espanhola.

Ao aproximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos prático o qual nos levou a Kingston.

O brasileiro que, depois de longa ausência do Brasil, chega à Jamaica sente logo um prazer especial, um frêmito de patriotismo, ao contemplas as soberbas montanhas da ilha, tanto elas lembram a natureza do nosso país. A baía, salpicada de interessantes ilhotas de verduras, verdadeiras ilhas flutuantes, em cujas águas imóveis bandos de aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrida e multicolor, voando duma margem à outra numa contradança animada, oferece aspectos lindíssimos. Jamaica parece um pedaço do Brasil transplantado para as Antilhas, tal a opulência da sua natureza.

É a maior e a mais florescente das colônias inglesas da América depois de Barbados. Mede aproximadamente quarenta léguas de comprimento.

(continua...)

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