Por Visconde de Taunay (1871)
Para apenas falar dos últimos dias: acaso fora exeqüível mais rápida marcha? Não estava de sobra provada a fadiga excessiva que ela nos valera? Não devêramos à obrigação de salvar os canhões, o atraso de dois dias, decorridos entre a morte do coronel Camisão e a partida da estância do Jardim? E se quiséssemos ir além, até o momento em que preferíramos o atalho proposto por Lopes, convinha não esquecer que, para tal escala, entre diversas vantagens, preponderara a consideração do interesse dos mercadores que era deles desviar o inimigo, atraindo-o sobre nós. Tomássemos a estrada batida para ir ao seu encontro, e protegê-los, como parecia plausível, era mais que provável houvéssemos todos sucumbido, nós e eles, até o último. Apanhando-os conosco não os teria a cólera poupado menos do que a nós no itinerário então escolhido, fosse porque já lhes transportássemos o germe ou os paraguaios nos houvessem contaminado. Quanto aos contínuos ataques com que nos haviam atormentado, muito maior número de ensejos lhes teríamos proporcionado se precisássemos atravessar tantos rios: o Feio, o Santo Antônio, o Desbarrancado. Aí o comboio mais nos estorvaria, pois não estaríamos em condições de o defender.
Se algum erro se cometera, devia ser atribuído aos próprios mascates, quando ao passarem pela colônia de Miranda, tinham recusado ouvir os conselhos de Vieira de Resende, um deles, o mesmo que víramos figurar na tomada de Bela Vista. Propusera-lhes este homem, tenente da guarda nacional de Goiás, nortear a marcha do comboio para a estância do Jardim, a cinco léguas, apenas, da colônia. Ali tratariam de se emboscar na mata do rio, espera de nossa coluna, que não podia deixar de lá chegar. E com efeito sua marcha para o norte assinalava-a no horizonte a fumaça dos incêndios que diante dela se renovavam sem conseguir detê-la. Mesmo que se aventasse alguma hipótese funesta, as vinte e duas carretas de mercadorias teriam formado excelente entrincheiramento contra o embate, quando muito momentâneo, de um troço de cavalaria, pois que, aliás, não podíamos, de modo algum, tardar em vir libertá-los. Debalde tentara Vieira Resende fazer ainda valer uma consideração decisiva, em relação a mercadores; acenara-lhes com o ensejo de venderem as mercadorias com belo lucro, exatamente no momento em que famintos iríamos sair daquelas planícies devastadas pelo fogo. Nada pudera persuadi-los. O lado militar de tal projeto, muito de acordo com as tendências aventurosas de quem o advogava - era esta a opinião geral - assustou aquela gente cujos sobressaltos cresciam na razão direta dos boatos de catástrofe que por toda a parte propalavam os nossos desertores. Persistiram na marcha para Nioac, pelo Canindé. Ali os alcançaram os paraguaios e os dispersaram, à primeira descarga; depois, saqueadas as carretas, empenharam-se em lhes prender os retardatários donos, atrapalhados como muitos deles estavam pelos objetos mais preciosos de suas cargas, que se não haviam disposto a abandonar. Inexoravelmente perseguidos fácil lhes fora, no entanto, graças a um pouco de firmeza, colocar-se sob a nossa salvaguarda.
Ao chegarmos ao Canindé nada mais ali havia do que destroços de toda a espécie, juncando os dois lados da estrada alguns montes nauseosos de farinha e arroz, amalgamados pelas bátegas de chuva, no meio das poças d'água do solo.
Ninguém jamais imaginara que este terrível amontoado de gêneros, quase irreconhecíveis, pudesse ser a causa de séria colisão, quase de um motim. Tal, porém, o império do organismo debilitado, tais os reclamos dos estômagos desde muito privados de alimento, que os soldados nele procuravam repasto com a avidez das feras que devoram uma presa. Todos para ali quiseram precipitar-se; romperam-se as fileiras, num tumulto inexprimível, no meio de um misto ensurdecedor de queixas, ameaças, vociferações e risadas idiotas, à vista daquele pasto imundo onde cada qual pretendia saciar-se. Quiseram a principio os oficiais interpor a sua autoridade, vendo-se, porém, desrespeitados. Então um deles, o tenente Benfica, injuriado por estes alucinados, atracou-se com um deles, derrubou-o e o dominou com o revólver.
A surpresa causada por este ato de energia começou por conter a multidão. Passado este primeiro momento apaziguara-se geralmente, quando súbito irrompeu o grito: o inimigo! Quer houvesse este sido realmente divisado, quer se tratasse de expediente empregado, graças a feliz inspiração, para que surgisse uma diversão, ficou o ascoroso repasto esquecido.
Não teve esta desordem conseqüências. Fingiu o comandante ignorá-la como provindo do excesso de nossas misérias e ativando, para um pouco mais longe, esta marcha, para a qual já se não tornavam suficientes as nossas forças, ordenou logo que fizéssemos alto e tratássemos de acampar.
Foram as disposições tomadas pelo novo ajudante do Quartel-Mestre, tenente
Catão Roxo, nomeado substituto do tenente-coronel Juvêncio. Passara o capitão Lago a exercer o cargo de assistente do ajudante general, o tenente Escragnolle Taunay o de secretário-geral adido ao comando. Ficara o tenente Barbosa o único representante da comissão de engenheiros recém-dissolvida.
Duas léguas, apenas, nos separavam de Nioac e o comandante, para avisar a nossa chegada, fez disparar, ao mesmo tempo, as nossas quatro peças, acompanhadas de um fogo rolante de todos os batalhões.
Nesta ocasião percebeu nossa gente a irregularidade do tiro pelo fato de que muito haviam as últimas chuvas deteriorado o armamento. Assim, pôs-se logo, e por si, a repará-lo e experimentá-lo várias vezes, a apostar quem atiraria melhor e mais depressa: luta improvisada que desvaneceu qualquer vestígio de torpor, chegando, aos últimos clarões do dia, a tomar festivo aspecto. A esperança de melhores dias está sempre pronta a renascerão no coração dos homens.
Nova fase de existência, realmente, como despontara; despertara a vida e o nosso horrível passado da véspera a fome, a morte, sob todos os aspectos já não nos apareciam mais senão como as alucinações dum pesadelo.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.