Por Franklin Távora (1879)
— Enganado! Pensa que, se não fora a senhora, eu estaria aqui?
— Mas para que há de ser ingrato e injusto? Veja Sinhazinha como o procura com a vista. Ela tem direito a retribuição diferente desta. Demais, por que há de insistir em avultar um castelo que, se existe na sua imaginação, não tem alicerces no seu coração? Declaro-lhe positivamente, Sr. Dr. Ângelo, que não creio em sua paixão por mim; mas, ainda quando esse impossível sentimento não fosse a trivial ilusão, que suponho, crê o senhor que eu poderia alimentá-lo? Sou escrava do meu dever.
— Pois sim, sim - respondeu Ângelo com maus modos. Não falemos mais nisso, minha senhora.
E levantou-se para por o charuto fora.
Com pouco, concluído o ensaio do coro, Maurícia e as outras senhoras passaram à sala de jantar, onde se serviu o chá. Ângelo não falou mais com Maurícia esta noite. Às dez horas, despediu-se, tomou com sua mãe o caminho da casa.
Nessa mesma note, Maurícia soube que tinham cessado as relações de Ângelo e Júlia. Martins referiu com demonstrações de satisfação a parte essencial da entrevista no escritório. Já era meio caminho andado. Esta revelação veio mudar os seus planos de luta para tirar o bacharel do poder da atriz. Tinha vindo mais para entrar nessa luta do que para praticar devoção, visto que tomara à sua conta o futuro de Sinhazinha. Mas sendo outras as circunstâncias, julgou conveniente aproveitar-se das facilidades que elas ofereciam. A luta agora deveria travar-se exclusivamente com o bacharel. Maurícia esperou pela primeira ocasião.
Esta ofereceu-se na noite seguinte, depois da conversa. Havia luar. A temperatura estava fresca e saudável. Maurícia propôs um passeio pela estrada, e a sua proposta foi aceita. Dividiu-se o juntamento deste modo: Alfredo e Iaiá rompiam a marcha; duas senhoras do Recife, que tinham ficado por instâncias de Martins e Eugênia, seguiram com estes após aqueles; Sinhazinha e D. Matilde seguiram, após o segundo grupo; Maurícia e Ângelo iam atrás de todos.
— Está zangado comigo? - perguntou Maurícia ao advogado.
— Queria que eu não ficasse magoado com os seus cruéis desenganos?
— Mas o que lhe posso dizer, Sr. Dr. Ângelo? Que quer o senhor que eu lhe diga?
— Quero que me diga que corresponde e corresponderá ao meu afeto com a veemência que é o primeiro sinal, ou antes, a essência do meu. Não lhe mereço este sentimento? Não tenho mais nada com mulher nenhuma. Deixe que eu seja franco. Durante alguns dias, senti certa simpatia, inclinação por Sinhazinha; ela não é feia; é até elegante e tem muito boas qualidades espirituais. Percebi essa inclinação e
cheguei a alimentar, por palavras e obras, no espírito da Sinhazinha a esperança de vir a ser, no futuro, seu marido. Eu estava por esse tempo inteiramente desenganado do seu amor, D. Maurícia. A senhora tinha voltado à vida conjugal; sua filha tinha casado; tive por certo que nunca mais se mudassem estas circunstâncias, que excluíam qualquer possibilidade de reatarmos as nossas relações violentamente despedaçadas pela sua ilusória reconciliação. Descrente, descontente, sentindo dentro em minha alma dobrado vácuo deixado pela morte do seu amor e pela morte de meu pai, era fácil ser atraído por essa gentil menina e ficar algum tempo enleado. Eu achara graça na sua modéstia, na sua timidez e, sobretudo, nas suas idealidades, porque eu estava sem ideal. Depois, conheci outra mulher, que, por seus sentimentos arrebatados, seus talentos artísticos me teve preso por poucos meses junto dela, numa ilusão confusa e atordoada, humaníssima, no estado em que eu vivia. Quando esse astro desapareceu dos meus olhos, tinha já fugido antes dele do meu pensamento a imagem da jovem singela, que fora o meu santelmo nos mares cruzados da vida e - coisa singular! na imensidade do meu espírito, assim desocupado, ressurgiu a sua forma, a sua pessoa, que eu julgava de todo morta. Eis a verdade. Pois bem: quando eu esperava que as suas primeiras palavras para mim fossem poemas de consolação e idílios de esperança; quando eu supunha que, estando a senhora livre como está - e para sempre, porque seu marido não há de tornar mais nunca - não teria para mim a expansão franca e expontânea do amor imenso que é compatível com o seu imenso coração, o que cai dos seus lábios, no entanto, são sentenças cruéis, que vêm aumentar a aridez de minha alma, já queimada pelo fogo de tantos desenganos.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.