Por Franklin Távora (1878)
No intuito de deixarem inteiramente serenados os espíritos dos pacíficos habitantes e restabelecida a ordem em Goiana, fixaram-se essas forças no engenho do capitão Bento Correa de Lima, que ficava à vista da vila, e onde estiveram por muitos dias.
O Tunda-Cumbe, sagaz e prevenido, tinha-se retirado com os seus ao valhacouto do Sipó, logo depois de constituído o governo que teve tão efêmera existência, o que não concorreu pouco para o aumento dos créditos da sua manha e penetração.
XVIII
Antes de chegar à Goiana, praticou em Pedras-de-fogo o bando que viera da Paraíba, capitaneado por Luiz Soares, uma infame tragédia.
Essa povoação, da qual, por efeito de nossa viciosa divisão territorial, uma parte pertence à província da Paraíba, e a outra parte a Pernambuco, já naquele tempo representava certo espírito de resistência ao elemento estrangeiro, que depois da referida tragédia se acentuou e manteve até bem pouco tempo, segundo direi.
A principal família de Pedras-de-fogo em 1711 não se caracterizava por clara linhagem nem por haveres, mas pelo numero de seus membros, pelo espirito de trabalho de cada um, pela harmonia que os trazia unidos uns aos outros, e pela valentia que de qualquer deles fazia um leão.
Manoel do O’, sujeito tirante a pardo, natural de Nossa-Senhora-do-ó fora ainda muito novo estabelecer-se com sua tenda de alfaiate em Pedras-de-fogo.
Esse lugar, que ainda hoje não é notável senão por sua grande feira de gados, a qual aí se faz semanalmente, por então começava apenas a povoar-se. poder-se-ia compor de quinze a vinte casinhas, em sua maior parte cobertas de palha.
O alfaiate casou-se com a filha de um mulato por nome José da Luz, que tinha na Rua-da-feira a casa de morada e defronte desta a tenda de ourives. A união foi fecunda, cada ano nascia a Manoel do Ó um filho; de tal sorte foram as coisas, que em 1710 a sua descendência se compunha de dez filhos e vinte e dois netos. Alguns destes já taludos.
Não havia nenhum que não tivesse seu meio de vida. Alguns não o tinham muito decente e legitimo; não há família numerosa em que se não aponte qualquer lepra. Em sua maioria, porém, eram os descendentes varões de Manoel do Ó de regular procedimento e muito benquistos no lugar.
Posto que, como meio de levantar a gentalha a seu favor, os mascates fizeram publicar que a sua causa era a da liberdade e da igualdade do povo contra a tirania constituída e os privilégios antigos da nobreza, meio a que deveram a maior parte dos auxílios dos naturais da terra, Manoel do Ó, que não era tolo, convidado por Maia a aderir aos motins, escusou-se, dizendo que nada tinha nem com os nobres, nem com os mascates, visto que era ele, como todos os seus, mecânico, plebeu e homem de cor.
Tanto bastou para excitar o desagrado dos insurgentes, dos quais foram, dentro em pouco, tão positivas e repetidas as hostilidades e arrogancias contra Manoel do Ó, que, ofendido este, ao principio simplesmente no seu melindre de família, e por derradeiro na própria pessoa de um filho, certo dia, de um genro daí a pouco, e de um neto semanas depois, resolveu declarar-se pela causa dos nobres; e uma das tentativas de Maia para fazer junção em Goianinha com o bando do Tunda-Cumbe, a fim de se dirigirem ao Recife, foi frustrada por Manoel com sua companhia de filhos, mais ou menos ligados com ele por laços particulares. Foi tão forte e acertada a oposição, que a força mandada por Maia não pode passar sequer os limites da Paraíba.
Não foi só esta a única tentativa de junção malograda; nenhuma houve de 11 de julho para traz que surtisse efeito. Manoel do Ó achava-se diante de todas com sua gente como barreira intransponível e fatal.
Estas e outras idênticas contrariedades exacerbaram por tal forma o capitão-mór da Paraíba que este assentou de queimar o ultimo cartuxo para as fazer cessar de todo.
- Diga a esse negro Manoel do Ó, assim se exprimia ele uma vez a certo sujeito que tinha relações com o alfaiate, que muito breve lhe hei de provar que O é o mesmo que zero; e a seus filhos José da Luz e Antonio da Luz, diga igualmente que hei de mandar apagar as luzes de sebo de Pedras-de-fogo pelo meu escravo Euzebio, com tiros de bacamarte.
Dito e feito. Em 10 de julho, quando menos se esperava no povoado, rompeu o fogo para as bandas da Baixinha, lugar de Pedras-de-fogo que pertence à Paraíba. Tinham sido dados os tiros pela gente de Luiz Soares contra uns sobrinhos do alfaiate que moravam desse lado.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.