Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias cerrou-lhe os olhos, e, ajoelhando-se ao pé do mísero leito com piedoso recolhimento, rezou pela alma do finado. Depois deu ao céu fervorosas graças pelo inestimável e quase miraculoso benefício que acabava de fazer-lhe por intermédio de um velho e miserável camarada.
Fechou cuidadosamente as portas e janelas da casa, montou a cavalo e partiu a galope para o Comércio da Cachoeira a dar ordens para que se fizesse um enterro decente a seu fiel e infeliz camarada.
XVII – A GRINALDA E O TÚMULO
Desde pela manhã Lúcia esperava com a mais ansiosa impaciência a vinda de seu amante. Achava-se cada vez mais enleada em cruéis apuros, e todos os dias seu pai a apertava vivamente para que se decidisse a aceitar por marido o negociante que havia solicitado sua mão.
Bem via ela que o horizonte de novo se anuviava e que outra vez o céu ia lhe impor o cruel dever de imolar, desta vez irremissivelmente, o seu amor à felicidade de sua família. Mas desta vez sua alma, ou porque já estivesse cansada de tantos embates e prostrada pelo desalento, ou porque seu amor mais avivado pela presença de Elias e fortalecido pela esperança dominasse despoticamente em seu coração, já não sentia aquela coragem que a tinha sustentado a primeira vez em sua nobre dedicação.
-mas, refletia ela consigo, eu então era só. Não tinha notícias de Elias, que andava por longes terras; não podia saber se ainda amava-me e nem mesmo se era vivo ou morto; podia dispor livremente de meu destino. Mas, agora que ele se acha perto de mim, que sei que vive e vive só para amar-me, e tanto direito tem adquirido ao meu amor, posso eu, sem consulta-lo, sem dizer-lhe uma palavra, sacrificar o meu futuro, que é também o dele, a um pesar eterno? . . . oh! não! certo que não! . . . eu atraiçoaria o amor que me consagra e a confiança que em mim tem, e mereceria bem que de novo me desprezasse e amaldiçoasse.
Tranqüilizada um pouco por este subterfúgio que lhe sugeria a sua consciência de amante, Lúcia se escusava para com seu pai com algumas evasivas, procurando ganhar tempo até que tivesse ocasião de achar-se com Elias para de acordo com ele resolver o terrível dilema em que estava empenhado o futuro de ambos.
Mas o sol já descaía muito de meio- dia e Elias não se apresentava. A posição de Lúcia tornava-se cada vez mais triste e aflita e recresciam as instâncias, rogos e ameaças de seu pai, que nesse dia assentara de levar ao último extremo a resignada paciência e submissão de sua filha.
Os homens de alma fraca e espírito acanhado, quando de ricos que eram caem em estado de pobreza, tornam-se irritáveis, intolerantes, injustos e até às vezes cruéis. O rancor de que se acham possuídos contra o destino que os maltrata e do qual não se podem vingar, eles o desabafam contra as pessoas que com eles vivem e lhes são sujeitas. O Major, encolerizado com as delongas e hesitações de Lúcia, perdeu aquela prudência e bonomia que sempre o caracterizava, e, calcando aos pés o decoro e o respeito que sempre guardava para com os sentimentos de sua filha, acabrunhou- a com um montão de impertinentes repreensões e cruéis exprobrações:
- Filha indócil e caprichosa! . . . bradava ele em acessos de cólera, que não sabes sacrificar uma paixãozinha indigna e ridícula aos verdadeiros interesses e ao sossego e felicidade de minha velhice. . . pensa acaso que não estou percebendo que ainda traz arraigada no coração essa afeição vergonhosa por esse pobre diabo, que aí anda à toa sem eira nem beira, e que tem sido constantemente o fantasma perturbador do meu repouso e da felicidade de minha família! Se nesta desgraçada terra houvesse polícia e um recrutamento em regra, não andariam por aí passeando livremente esse e outros vadios dessa laia, que não têm outra ocupação mais do que perturbar a paz das famílias! . . . Ah! nunca pensei que a minha filha querida, que eu criei aos meus braços e ao meu colo, com tanto esmero e tanto mimo, viesse amargurar-me assim o resto de meus dias! . . .
E Lúcia, a pobre Lúcia, com os olhos baixos e coberta de vergonha, ouvia toda aquela explosão da cólera paterna, trêmula e transida de horror, como quem ouve o estalar da trovoada, e só respondia com lágrimas e soluços. Seu coração já não tinha forças para resistir a tão rudes embates; forçoso lhe era curvar-se a esse novo sacrifício que o coração repelia, mas a consciência aconselhava.
Levada ao último extremo pelas cruéis e duras palavras do Major, Lúcia, com a fronte rubra a um tempo de pejo e de indignação, com o coração a transbordar de amargura e desespero, atirou-se aos pés de seu pai.
- Eis-me aqui, meu pai! . . . bradou com voz rouca e cortada de soluços. Eis aqui, não a sua filha, mas a sua escrava. Faça dela o que bem lhe aprouver!
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.