Por Bernardo Guimarães (1872)
Jupira voltou o rosto, e com um gesto entre irado e risonho, que tanto se podia tomar por uma ameaça como por um convite, continuou a nadar. Carlito, que era estouvado e audacioso, atirou-se a nado em seguimento dela. Mas antes que pudesse alcançá-la, já ela tinha saltado à praia e agarrando suas roupas não havendo tempo para vesti-las, nelas embrulhouse à pressa, e correu a embrenhar-se no mato soltando uns clamores, que mal se podia saber se eram gritos de terror ou risadas de prazer.
Carlito seguiu-a de perto, e um momento depois sumia-se também pelas brenhas atrás dela.
Os mistérios, que a cúpula frondente do bosque amparou com sua discreta sombra nos momentos que se seguiram, ninguém os sabe. É certo que uma nuvem carregada tapou então a face do sol, um tufão vergou o topo dos arvoredos com pesaroso sussurro, e uma sombra sinistra toldou o álveo límpido das águas, e... no ádito das brenhas ressoaram murmúrios intercadentes beijos e suspiros abafados.
Capítulo VII
Imaginem os leitores, que eu não o tentarei descrever, como rápidos e deliciosos corriam os dias aos dois jovens amantes fruindo em segredo seus furtivos amores à sombra das florestas virgens, ao murmúrio dos córregos do deserto. Vênus e Adônis, vagueando pelos vergéis da Idália, Diana e Endimião pelas selvas da Tessália não gozaram momentos mais venturosos do que os nossos dois jovens sertanejos à sombra das florestas americanas.
Mas essa bem-aventurança não devia durar muito tempo, como toda aquela que provém de uma fonte impura e viciada. As portas daquele paraíso de delícias deviam ser-lhes trancadas, como foram aos primeiros pais da humanidade, que morderam o fruto vedado por expressa determinação da divindade.
Carlito era leviano e volúvel como criança, que era. Depois de se ter longamente embriagado de volúpia nos braços amorosos da feiticeira cabloca, começou a sentir cansaço, a enfastiar-se como o conviva repleto depois de uma longa noite de orgia. Pouco a pouco e sem o sentir ia escasseando suas carícias, e já não era tão assíduo e extremoso ao pé de sua amante. Jupira pelo contrário cada vez o amava com mais ardor, e seria capaz de passar a enternidade nos braços dele sem a menor quebra na exaltação de seus afetos. Doía-lhe cruelmente no íntimo da alma aquele resfriamento da paixão do moço; mas Jupira não sabia queixar-se, nem chorar.
Quantas vezes ia ela ao aprazível remanso do Rio Verde, onde costumava banhar-se, sítio favorito de suas furtivas entrevistas, e ali ficava largo tempo sentada com a mão na face a olhar para o fundo límpido do rio a esperar em vão pelo remisso e frouxo amante, que não vinha!
Uma tristeza mortal lhe pesava sobre o coração, e cansada de esperar voltava para casa com a fronte baixa e a passos vagarosos.
– Que tens, Jupira?... o que estás aqui cismando assim tão triste?...
disse-lhe Carlito um dia em que a encontrou naquela triste postura, pensativa à beira do rio.
– Ah! Carlito!... Carlito!... por que razão não me queres mais bem?...
A rola viúva não saberia gemer com mais tristeza, do que Jupira suspirou aquela magoada queixa.
Carlito comovido caiu em si, e sentiu acudirem-lhe as lágrimas aos olhos.
– Eu não te querer mais, meu bem? quem te disse isso?...
– Quem me disse!?... ainda me perguntas?... estas árvores, este rio, este céu que nos cobre, tudo está vendo que não sou mais querida...
Carlito não sabendo o que responder-lhe, abraçou-a, e procurou abafar-lhe a voz com beijos.
– Deixa-me, Carlito; Jupira já não é mais tua, – murmurou ela esquivando-se aos beijos de Carlito.
Os olhos de Jupira desataram uma torrente de lágrimas. Era a primeira vez que chorava em dias de sua vida, desde que deixara de ser criança.
As lágrimas que borbotavam ardentes e copiosas dos olhos de Jupira, escaldavam as faces de Carlito, mas bem depressa se estancaram, e os olhos da cabocla reluziram secos e cintilantes como os da jararaca enfurecida; passou pelos lábios ressequidos a língua fina e rubra, soltou um sorriso convulso, amargo, indefinível, e disse:
– Quando não me quiseres mais bem, me fala; ouviste, Carlito?...
– Quando é que hei de deixar de te querer bem?... Jupira, por quem és não me fales assim.
– Como não hei de falar?... torno a repetir, quando me não quiseres mais, fala, Carlito.
– Então podes ficar certa, que nunca te hei de dizer nada.
– Sim?... por quê?
– Porque nunca hei de deixar de te querer.
– Isso é de boca... teu coração diz o contrário... bem estou vendo...
não será necessário que me digas nada... mas quero ver ainda mais, e depois...
– E depois o quê, Jupira?
– Estás vendo esta faca? disse a cabocla tirando do seio e desembainhando a lâmina luzente e afiada de sua pequena faca.
– Jupira!...
– Não estás vendo? – continuou Jupira com um tom de glacial indiferença, que fez estremecer o rapaz. – Acho que a folha desta faca é bastante comprida para chegar-me ao coração, e ao teu também, Carlito.
Carlito, que estava sentado ao pé dela, pôs-se em pé de um salto.
– O que é isso? exclamou aterrado: o que dizes, menina?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.