Por Bernardo Guimarães (1875)
— Que caráter desprezível e abjeto o deste Martinho! — exclamou Geraldo. — De um tal instrumento não se pode esperar obra que preste. E julgas ter conseguido muita coisa, Álvaro, com o passo que acabas de dar?...
— Não muito, porém alguma coisa sempre posso conseguir. Pelo menos consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz lá o rifão popular, meu Geraldo, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
Enquanto Leôncio, persuadido que a sua escrava não se acha aqui no Recife, a procura por todo esse mundo, ela fica aqui tranqüilamente à minha sombra, livre das perseguições e dos maus-tratos de um bárbaro senhor; e eu terei tempo para ativar os meios de arranjar provas e documentos que justifiquem o seu direito à liberdade. É quanto me basta por agora; quanto ao resto, já que pareces julgar a minha causa irremissivelmente perdida, a justiça divina me inspirará o modo por que devo proceder.
— Como te enganas, meu pobre Álvaro!... cuidas que arredando o Martinho ficas por enquanto livre de perseguições e pesquisas contra a tua protegida? que cegueira!... não faltarão malsins igualmente esganados por dinheiro, que pelos cinco contos de réis, que para estes miseráveis é uma soma fabulosa, se ponham à cata de tão preciosa presa. Agora principalmente, que o Martinho deu o alarma, e que esse negócio tem atingido a um certo grau de celebridade, em vez de um, aparecerão cem Martinhos no encalço da bela fugitiva, e não terão mais que fazer senão seguir a trilha batida pelo primeiro.
— És muito meticuloso, Geraldo, e encaras as coisas sempre pelo lado pior. É bem provável que peguem as patranhas inventadas pelo Martinho, e que ninguém mais se lembre de descobrir a cativa Isaura nessa moça, por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem por todos os cantos do mundo, pouco me importará.
Sempre obtenho uma dilação, que poderá me ser muito vantajosa.
— Pois bem, Álvaro; vamos que assim aconteça; mas tu não vês que semelhante procedimento não é digno de ti?... que assim incorres realmente nos epítetos afrontosos, com que obsequiou-te o tal Leôncio, e que te tomas verdadeiramente um sedutor e acoutador de escravos alheios?...
— Desculpa-me, meu caro Geraldo; não posso aceitar a tua reprimenda.
— Ela só pode ter aplicação aos casos vulgares, e não às circunstâncias especialíssimas em que eu e Isaura nos achamos colocados. Eu não dou couto, nem capeio a uma escrava: protejo um anjo, e amparo uma vítima inocente contra a sanha de um algoz. Os motivos que me impelem, e as qualidades da pessoa por quem dou estes passos, nobilitam o meu procedimento, e são bastantes para justificar-me aos olhos de minha consciência.
— Pois bem, Álvaro; faze o que quiseres; não sei que mais possa dizer-te para demover-te de um procedimento, que julgo não só imprudente, como, a falar-te com sinceridade, ridículo, e indigno da tua pessoa.
Geraldo não podia dissimular o descontentamento que lhe causava aquela cega paixão, que levava o seu amigo a atos que qualificava de burlesco desatino, e loucura inqualificável. Por isso, longe de auxiliá-lo com seus conselhos, e indicar-lhe os meios de promover a libertação de Isaura, procurava com todo o empenho demovê-lo daquele propósito, pintando o negócio ainda mais difícil do que realmente o era. De bom grado, se lhe fosse possível, teria entregado Isaura a seu senhor somente para livrar Álvaro daquela terrível tentação, que o ia precipitando na senda das mais ridículas extravagâncias.
CAPITULO XVIII
Achando-se só, Álvaro sentou-se junto a uma mesa, e apoiando nela os cotovelos com a fronte entre as mãos, ficou a cismar profundamente.
Isaura, porém, pressentindo pelo silêncio que reinava na sala, que já ali não havia pessoas estranhas, foi ter com ele.
— Senhor Álvaro, — disse ela chegando-se de manso e timidamente; — desculpe-me... eu venho decerto lhe aborrecer... queria talvez estar só...
— Não, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contrário, és sempre bem-vinda junto de mim...
— Mas vejo-o tão triste!... parece-me que aqui entrou mais gente, e alteravam-se vozes. Deram-lhe algum desgosto, meu senhor?...
— Nada houve de extraordinário, Isaura; foram algumas pessoas que vieram procurar o doutor Geraldo.
— Mas então, por que está assim triste e abatido?
— Não estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de arrancar-te do abismo da escravidão, meu anjo, e elevar-te à posição para que o céu te criou.
— Ah! senhor, não se mortifique assim por amor de uma infeliz, que não
merece tais extremos, É inútil lutar contra o destino irremediável que me persegue.
— Não fales assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha proteção e o meu amor!...
— Não sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue seu amor em outra mulher que dele seja merecedora, e esqueça-se da pobre cativa, que tornou-se indigna até de sua compaixão ocultando-lhe a sua condição, e fazendo-o passar pelo vergonhoso pesar de...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.