Por Eça de Queirós (1887)
Seis cavaleiros da guarda babilônica de Antipas Herodes, tetrarca de Galiléia, escoltavam a caravana desde Tiberíade; traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tranças, as pernas ligadas em tiras de couro amarelo; e caracolavam à frente, fazendo estalar numa das mãos açoites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanjes que faiscavam. Logo atrás era uma colegiada de levitas, em coro, a passos largos, apoiados a bordões enfeitados de flores, com os rolos da lei apertados sobre o peito, salmodiando rijo os louvores de Sião. E em tomo moços robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céu furiosamente em trompas recurvas de bronze.
Mas, dentre a gente apertada à beira da estrada, rompeu uma aclamação. Era um velho, sem turbante, de cabelos soltos, recuando e dançando freneticamente; das mãos cabeludas que ele agitava no ar saía um repique de castanholas; ora arremessava uma perna, ora outra; e toda a sua face barbuda de rei Davi ardia com um fulgor inspirado. Atrás dele, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandálias, feriam com dolência harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam do alto os tamborins - e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das túnicas enfunadas... Então, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituais e os salmos de peregrinação.
Meus passos vão todos para ti, ó Jerusalém! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundância!
E eu bradava também, transportado:
- Tu és o palácio do Senhor, ó Jerusalém, e o repouso do meu coração!
Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebuçadas, semelhavam grandes sacos moles; as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o grão da aveia. Os previdentes, já com a sua oferenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam às costas, presos pelos braços, os doentes, cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam ansiosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.
Entre os peregrinos e a alegre multidão que os acolhia, as bênçãos cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos vizinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldeia à sombra da sua vinha; e ouvindo que lhe fora roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas de um Abraão, arremessou-se a terra a arrepelar-se e a esfarrapar a túnica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guizos carregadas de lenha e de odres de azeite; e atrás uma turba de fanáticos que nos arredores, em Betfagé e em Refraim, se tinham juntado à caravana, apareceu, atirando para os lados cabaças de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos samaritanos e ameaçando a gente pagã...
Então seguindo Topsius, trotei de novo através do monte, para junto dos cedros cobertos do vôo alvo das pombas; e nesse instante também os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam enfim Jerusalém, que resplandecia lá embaixo formosa, toda branca na luz... Então foi um santo, tumultuoso, inflamado delírio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura; um clamor de orações subia ao céu puro, por entre o estridor das tubas; as mulheres erguiam os filhos nos braços, ofertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam imóveis, como assombrados, ante os esplendores de Sião; e quentes lágrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terraços do templo, as ruas antigas, os sacros lugares da história de Israel: "ali é a porta de Efraim, acolá era a torre das Fornalhas; aquelas pedras brancas, além, são do túmulo de Raquel..." E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as mãos, gritavam "Bendita sejas, Sião!" Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam tropeçando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da oferta. Por vezes, dentre as árvores, um canto subia, claro, fino, cândido, e que ficava tremendo no ar; a terra um momento parecia escutar, como o céu; serenamente, Sião rebrilhava; do templo os dous fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna... Depois o canto morria; de novo as bênçãos rompiam, clamorosas; a alma inteira de Judá abismava-se no resplendor do santuário; e braços magros erguiam-se freneticamente para estreitar Jeová.
De repente Topsius colheu-me as rédeas da égua; e quase ao meu lado um homem, com uma túnica cor de açafrão, surgindo esgazeado detrás de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima de uma pedra e gritou desesperadamente:
- Homens de Galiléia, acudi, e vós, homens de Neftali!
Peregrinos correram, erguendo os bastões; e as mulheres saiam das tendas, pálidas, apertando os filhos ao colo. O homem fazia tremer a espada no ar; todo ele tremia também; e outra vez bradou, desoladamente:
- Homens de Galiléia, Rabi Jeschoua foi preso! Rabi Jeschoua foi levado a casa de Hanão, homens de Neftali!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.