Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Este bacharel lavares era um primo segundo de D. Virgínia. Formoso e variado talento o seu! Pintor, poeta, dramaturgo, cultivava estas artes apenas como amador. Algumas das suas deliciosas traduções de vaudevilles foram representadas com êxito no Ginásio, sob o pseudónimo de César Trajano, e os seus versos, de um encanto pene-trante, de uma suavidade simples, à João de Deus, só os dizia muito solicitado, ou oferecia às senhoras alguma cópia, que era ao mesmo tempo uma obra notável de caligrafia.

Este formoso talento era amanuense na Procuradoria Geral da Coroa, e ele não me ocultou que esperava da futura elevação política de Abranhos a sua própria elevação na carreira publica, esperança que era de resto partilhada por todos os familiares do Salão Abranhos, aos quais devemos acrescentar o padre Augusto e os Amados.

Toda esta gente, com efeito, seguia com um interesse ansioso a carreira parlamentar de Alípio Abranhos. Pode-se dizer que esta, desde a sua passagem para a oposição, não era pacífica nem preguiçosa: o grande orador, segundo a expressão conhecida, estava sempre na brecha. Nunca um ministério teve um inimigo mais persistente, mais vigilante: – interpelações, moções, ordens do dia, discursos, apartes, e muitas vezes, na sua justa indignação, patadas no soalho – tudo empregou contra o governo, à maneira do bravo combatente Roldão, que ia contra os mouros à espada, à pedra, e aos coices do seu ginete! Foi um período de febre, de batalha. Dizem-me que havia então nas suas palavras, nos seus olhos, nas suas passadas, alguma coisa de guerreiro, de belicoso. A noite, ao chá, entre os amigos, exclamava, de pé, no meio da sala, com a chávena na mão:

– Hei-de-os atirar de cangalhas, minhas senhoras! Hei-de-os atirar de cangalhas!

É sabido, porém, que a Providência determinara que o ministério Cardoso Torres não seria «atirado de cangalhas» – segundo a sua pitoresca expressão – pelo nosso sublime Alípio Abranhos.

Com efeito, quando as Câmaras fecharam em Abril, o ministério Cardoso Torres era, como dizia Esquilo, o pomposo dramaturgo, «torre de ferro, de força e de domínio». Alípio Abranhos, portanto, retirou-se como de costume para Campolide, a retemperar na comunhão da Natureza as suas forças cerebrais, exaustas por tantos com-bates da inteligência.

E foi aí, numa clara e luminosa manhã de Junho, que recebeu de golpe a notícia de que o ministério Cardoso Torres fora derrubado por uma revolução!

Não me compete aqui fazer a narração da Revolta de 20 de Junho. Os detalhes desse episódio são familiares à nossa geração. Um velho general despeitado, saltando através da Constituição, com a desenvoltura com que num circo um atleta salta através de um arco de papel, trotou tranquilamente para o Paço, seguido de três regimentos, e pediu a demissão do ministério e a concentração na sua pessoa heróica e legendária, de.69 todo o poder social. Foi de resto um pronunciamento à espanhola, na proporção, todavia, que existe entre o feroz génio castelhano e o nosso temperamento pacífico, entre uma sangrenta corrida de Sevilha e uma alegre tourada no Campo de Santana. Não vimos as patéticas derramações de sangue que são da tradição clássica na violenta terra do Cid; houve apenas, segundo se diz, ferimentos ligeiros, facilmente curados numa farmácia amiga. E o general ilustre, que partira às sete da manhã, rebelde, à testa de um exército rebelde – voltava, às sete e meia, num trote sossegado, presidente do Conselho, à frente das forças da Ordem!

Que surpresa para esta boa população de Lisboa! Mas que desgosto para mim!

Eu, que nunca presenciara uma revolta nem uma guerra civil, perdia assim, roncando estupidamente o sono da madrugada, a oportunidade de ver um pronunciamento, de assistir a episódios de guerra, de testemunhar a única revolução armada da minha época, no meu país. E isto inteiramente por negligência minha. Eu escrevia então, com proveito e aplauso, as locais no jornal O Estandarte; às duas horas da manhã, depois de rever as provas de uma deliciosa anedota que copiara do Almanach Pour Rire, preparava-me para deixar a redacção, quando dois colegas entraram, trazendo o boato de que o general citado organizava um movimento para essa madrugada, e propondo que tomássemos uma tipóia para «ir ver a revolução a Belém».

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4748495051...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →