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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Ela queixava-se de um ameaço de enxaqueca. Ele tinha-lhe tomado a mão, repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe "sua pomba", "seu ideal". E pensava: - "Estás caída!" Pararam na Praça da Alegria. Luísa espreitou, saltou depressa, dizendo:

- Amanhã, não faltes, hem?

Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente para a Patriarcal.

Basílio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Acendeu outro charuto, estendeu as pernas, gritou:

- Ao Grêmio, ó Pintéus!

Na sala de leitura, o seu amigo o Viscondo Reinaldo, que havia anos vivia em Londres, e muito em Paris também, lia o Times languidamente, enterrado numa poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com a promessa de voltarem juntos por Madri. Mas o calor desolava Reinaldo; achava a temperatura de Lisboa reles; trazia lunetas defumadas; e andava saturado de perfumes, por causa "do cheiro ignóbil de Portugal". Apenas viu Basílio deixou escorregar o Times nu tapete, e com os braços moles, a voz desfalecida:

- E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrível, menino! Eu morro! Preciso oNorte! Preciso a Escócia! Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. Se ela te resiste, mata-a!

Basílio, que se estendera numa poltrona, disse, estirando muito os braços:

- Oh! Está caidinha!

- Pois avia-te, menino, avia-te!

Apanhou moribundamente o Times, bocejou, pediu soda - soda inglesa!

Não havia, veio dizer o criado. Reinaldo fitou Basílio com espanto, com terror, e murmurou soturnamente:

- Que abjeção de país!

Quando Luísa entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo à porta:

- O Sr. Sebastião está na sala. Tem estado um ror de tempo à espera... Já cá estava quando eucheguei.

Tinha vindo com efeito havia meia hora. Quando a Joana lhe veio abrir, muito encarnada, com ar estremunhado, e resmungou que a senhora estava para fora, Sebastião ia logo descer, com o alívio delicioso de uma dificuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, entrou, pôs-se a esperar... Na véspera tinha decidido falar-lhe, avisá-la que aquelas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, numa rua maligna, podiam comprometê-la... Era o diabo, dizerlho!... Mas era um dever! Por ela, pelo marido, pelo respeito da casa! Era forçoso acautelá-la... E não se sentia acanhado. Perante as reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração batia-lhe um pouco, sim, e estava pálido... Mas, que diabo havia de lho dizer!...

E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas frases, procurando-as muito delicadas, bem amigas...

Mas a campainha retiniu, um frufru de vestido roçou o corredor - e a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao piano, pôs-se a bater vivamente no teclado. Quando Luísa entrou, sem chapéu, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado:

- Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava à espera... Então de onde vem?

Ela sentou-se, cansada. Vinha da modista - disse. Fazia um calor! Por que não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de cerimônia! Era família, era seu primo que viera de fora. - Está bom, seu primo?

- Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive láfora!

Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos:

Está claro, quem vive lá fora!

- E Jorge, tem-lhe escrito? - perguntou Luísa.

- Recebi carta ontem.

Também ela. Falaram de Jorge, dos tédios da jornada, do que contava do fantástico parente de Sebastião, da demora provável...

- Faz-nos uma falta, aquele maroto! - disse Sebastião.

Luísa tossiu. Estava um pouco pálida, agora. Passava às vezes a mão pela testa, cerrando os olhos.

Sebastião, de repente, teve uma decisão:

- Pois eu vinha, minha rica amiga... - começou.

Mas viu-a ao canto do sofá com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos.

- Que tem? Está incomodada?

- É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E com uma força!

Sebastião tomou logo o chapéu:

- E eu a maçá-la! É necessário alguma coisa? Quer que vá chamar o médico?

- Não! Vou-me deitar um momento; passa logo.

Que não apanhasse ar, ao menos, recomendava ele. Talvez sinapismos ou limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse melhor que o mandasse chamar...

- Isto passa! E apareça, Sebastião! Não se esconda...

Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:

- "Eu não me atrevo, Santo Deus!..." - Mas à porta, ao levantar os olhos, no fundo escuro da lojade carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre

branco, estendendo o olhar, cocando; por cima, três das Azevedos, entre as velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas nalgum conciliáculo maligno! Por trás dos vidros a criada do doutor costurava, com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja de móveis, Sentiam-se as expectorações do patriota.

(continua...)

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