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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cum prir uru devermelancólico: acompanhar a Cádis aquela infeliz Cármen, ainda há pouco de uma beleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitências.Lorde Grenley, que ia para Cádis dentro de quatro dias, tinha-nos oferecido, a Cármen e a mim, o seu iate. Aceitei com alegria. Era um transporte cómodo e livre, e Lorde Grenley uma companhia simpática, porque me assustava a ideia de ver, durante uma longa viagem nomar, a debilidade de Cármen estiolar-se ao meu lado. Enfim, uma tarde partimos.

Era ao escurecer, o céu estava nublado, quase chuvoso. Cár men ia profundamentedoente. Magra, transparente, lívida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quase só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquela exaltação a que faltava a terra procuravafebrilmente todos os caminhos do Céu.

Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas bru mas da noite. Nunca maistornaria a ver aquela branca cidade. Não fora ali feliz. Mas amámos todos aqueles lugares em que por qualquer sentimento ou por qualquer ideia a nossa natureza pal pitou fortemente. E ali tinham ficado lágrimas minhas.Logo no primeiro dia de viagem, Cármen esteve expirante. Ha via um forte balanço.

Ornar era grosso, e nós receávamos mau tem po quando nos avizinhássemos das correntes dogolfo de Lião.

Cármen quase sempre queda estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-selhe uma cama; e ali ficava, olhando, cismando, sofrendo, e conversando com o capelão deLorde Grenley, velho cheio de unção, que tinha um encanto singular falando das coisas do

Céu. Aquela cena era profundamente triste sobretu do de tarde; o Sol caía, a imensa sombracomeçava a cobrir o mar; Cármen falava baixo; nós, em redor, escutávamo-la; ou calados, seguíamos ocorrer da maresia, olhávamos o fim da luz. Um marinheiro escocês vinha às vezes cantar as árias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago. Ao terceiro dia de viagem, Cármen, subitamente, teve um grande acesso de febre e quis confessar-se. O médico disse-nos que ela não chegada a ver as montanhas da Espanha.Que horas do lorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têm, na vasta extensão das águas, as dores humanas! Junta-se-lhes o sentimento da imensidade, e não sei que terrível instinto do irre parável.A confissão de Cármen foi longa. Quando terminou quis fa lar-me.

— Adeus — disse-me ela. — Vou morrer.Disse-lhe que não, quis dar-lhe esperanças efémeras. — Não, não — respondeu ela -, nada de enganos. Tenho co ragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame Lorde Grenley.Começou então diante de nós a falar da sua vida. Disse-nos qual fora a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigência das suas paixões, e falou-nos da sua ligação comRytmel, com elevação, como de um sentimento quase legítimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdém. As Últimas palavras da sua vi da eram dignas. Depois tirou um rosário do seio.- Veio de Jerusalém — disse-me — dê-lho a ela. Eu tinha os olhos humedecidos. Cármen, entretanto,

Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Colocámos Cármen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida.Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.

— Que terra é aquela? — perguntou mostrando, com a mão tré mula, uma linha escura no horizonte.- A África — respondeu Lorde Grenley.

Ela ficou olhando vagamente:- Fui uma vez a Tânger — disse com uma voz lenta -, era no va então! Era feliz! Estava um dia lindo... Era em Maio...

Calou-se. E voltando-se para mim:- Faz agora meses que passámos nesta altura, lembra-se? E aquele punch a bordo do Ceilão? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O que é ser alegre! Tudoacabou, nunca mais! nunca mais!

E como falando consigo mesmo: — Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio deste mar.Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a ele... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois... Omarinheiro que canta as árias escocesas, onde está? Chamem-no. Não, não o chamem que me vai fazer chorar.

Nós escutávamo-la; a sua alma falava como um pássaro canta ao morrer. As nuvensdesfaziam-se, o azul aclarava, ia aparecer o sol.

— Vejam isto — continuou ela. — Em nova diziam-me és bo nita, amo-te! E agora quemorro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Es tão agora alegres, amam outras, vão para os teatros. E eu estou aqui a morrer. E ele? Lembrar-se-á de mim? Também não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, quenão está aqui, que morro e que ele se não lembra de mim!



(continua...)

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