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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

conhecêramos e tratava-me com a brandura que usava com todos os inferiores. Só o Plínio de Andrade, mais por sistema do que por qualquer outra coisa, continuava a dispensar-me a consideração de igual. Fora ele que me explicara a questão do empréstimo da Prefeitura. Era verdade que o título não era bom; mas a questão não girava só em torno disto. O pomo de discórdia residia na comissão do lançamento do empréstimo, e sendo esta avultada, perto de mil e tantos contos, permitia gordas gorjetas aos jornalistas e políticos. O Governo queria o corretor Machado, mas organizara-se um sindicato no intuito de obtê-lo para o banqueiro Rodrigues. Aires d'Ávila, ocultamente, fazia parte do partido de Rodrigues e o doutor Ricardo, que já de há muito antipatizava com o Machado, foi por ele convencido que devia combater com todas as forças a operação projetada. Raro era o dia em que na folha não saíssem algumas linhas tendentes a contrariar o lançamento do grande empréstimo interno. Todos colaboraram para esse fim. Aires d'Ávila, sempre na estacada, desovava argumentos no seu artigo diário, escrito num estilo de exercício de classe; Gregoróvitch escrevia os soltos, sueltos, curtos, breves, mas fortes, cheios de injúrias, atrevidos; Floc, nas suas esforçadas crônicas literárias ou teatrais, dava alfinetadas; mas quem ia desmoralizando a operação era Losque com as quadrinhas satíricas das “Brotoejas”. A cidade inteira sabia-as de cor e pelos bondes, nas confeitarias, nos cafés, nas escolas, nas espeluncas, nas casas mal-afamadas, por qualquer coisa se dizia o estribilho com que elas acabavam: — “e dinheiro não virá”. Se alguém perdia no jogo e era jocoso, ao apostar segunda vez, dizia: “e dinheiro não virá”. Em conversa de família, se qualquer pessoa queria referir-se ao gorado casamento rico de um desembargador, que partira para Paris à caça de uma herdeira, comentava: ele vai e... “o dinheiro não virá”. Era bastante que em qualquer momento, fosse como fosse, se encaixasse o estribilho, para se obter um franco sucesso de riso.

A atitude do Governo era curiosa. Às vezes ostentava-se forte, mandava dizer pelos seus jornalistas que o lançaria pelo corretor que entendesse. Os artigos rompiam, mostrando as vantagens da operação, mas Loberant, ou alguém por ele, atirava no dia seguinte um artigo descompassado, pejado de descompostura, e os adversários esfriavam. Neles não se raciocinava, não se ia adiante dos argumentos do adversário. Afirmava-se e insultavase o contendor com alguns palavrões do calão do Quinhentos ou do Seiscentos. E essas palavras ressuscitadas eram de efeito seguro. A multidão guardava-as de cor, procurando-lhes a significação e o sentido.

Nos “apedidos” do Jornal do Comércio, era interessante o combate. Havia artigos sisudos, cheios de citações, Léon Say, Leroy-Beaulieu, versos de Racine; havia epigramas, ligeiros e ágeis que nem um torpedeiro, e venenosos que nem uma cascavel.

No meio de todo esse emaranhado de coisas graves, desse espesso enleamento de paixões, de vilezas e ambições, lá aparecia, na famosa subdivisão do velho quotidiano, uma clareira de desinteresse, de afastamento do mundo, das coisas vis e baixas. Era o “apedido” de um louco que parecia sorrir, ria sua loucura, das nossas brutais preocupações de cada dia. Pairava alto, muito longe.

Era um antigo funcionário de Fazenda que se dizia grande poeta épico e se propunha a cantar a imortalidade de um sertanejo que havia guiado corajosamente não me recordo que viajante estrangeiro, lá nos igapós da Amazônia.

Assim começava o poema:

“Rapaz! Tua glória quero cantar

Imortal como se fosse Waterelo

Neste poema que é todo meu

E que de ninguém fui copiar”

E seguia:

“30 por uma tinha

40 por uma migalha

60 por uma cara

70 por um borralho”

Continuava assim desassisado, delirando; mas desdenhoso das contendas que se travavam bem junto dele.

Os velhos lembravam-se do “Mal das Vinhas”, do “Príncipe Ubá” e outros dementados, constantes fregueses da seção paga do velho Jornal do Comércio.

Os moços, como eu, tinham um grande prazer em ver como superiormente brilhava, com altas virtudes, a loucura, naquele trevoso enquadramento de baixos interesses, de injúrias e sordícia monetária.

O mais notável, porém, eram as verrinas, alusões a vícios e maus hábitos dos adversários. Causava pasmo o esforço de imaginação despendido em se obter circunlóquios bastante claros para serem compreendidos no seu verdadeiro sentido por toda a gente e bastante velados para não haver impedimento na sua publicação. O diretor era alvejado com encarniçamento; não se incomodava, mas nos artigos fingia-se ferido, desgostoso. Aires d'Ávila recebia também um bom quinhão. Veio até publicado um epitáfio seu, em verso, terrivelmente sarcástico, que era atribuído a um poeta famoso pela perfeição dos seus versos, pelo seu humor boêmio e veia satírica. Dizia assim:

P. R.

(A. A.)

“Quando ele se viu sozinho

Da cova na escuridão,

Surripiou de mansinho

Os bordados do caixão”

(continua...)

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